terça-feira, janeiro 23, 2007

Diálogos soltos, 6

Zé Pedro

- Até amanhã!
- Adeus. Adeus. Adeus.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Dá que pensar, 11


K.O.T.A.

"Em Portugal, 18 mil mulheres abortaram ilegalmente em 2005. 350 mil portuguesas fizeram-no pelo menos uma vez na vida. Estes números revelam a amplitude e a brutalidade de uma realidade escondida.

Estes dados são retirados de um inquérito sistemático sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG). O estudo destaca a solidão das mulheres confrontadas com uma gravidez não desejada, por vezes pouco informadas sobre práticas contraceptivas, e que abortam sem apoio social ou médico. Segundo o estudo, 64,1% das mulheres portuguesas que reconheceram terem abortado em 2005 não tiveram apoio médico e 34,9% fizeram-no num domicílio particular. 72,5% destas mulheres foram informadas, por amigas, sobre a prática do aborto. 46,1 % não usavam qualquer método contraceptivo. Mais de metade têm uma idade entre os 17 e os 24 anos. 25% tomaram a decisão sozinhas e 40,8% consideraram ter sido uma decisão "extremamente difícil".

Perguntadas sobre o método utilizado 35% referem a raspagem, 25% a tomada de comprimidos e 23% a aspiração. Além dissso, 16% afirmaram desconhecer o método utilizado com elas.

Segundo Duarte Vilar, director da AFP, os números estarão abaixo da realidade. " Num país onde a IVG é ainda ilegal, é muito provável que um número importante de mulheres não se atreva a reconhecer a sua prática", sublinha.
Em Portugal, um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a pedido da mulher, nas primeiras dez semanas de gravidez, vai realizar-se no próximo dia 11 de Fevereiro. "


JPS/Fonte:AFP
in "A Página da Educação"
nº163, Jan. 2007, p.4

domingo, janeiro 14, 2007













Alba Luna



Sedentas de olhares

minhas raízes rasgam

solos duros

riscam palavras de luz

no granito escuro.


Sedentas de olhares

minhas raízes lançam-se

no oceano obscuro

dançam palavras de sol

na água gélida.


Sedentas de olhares

minhas raízes saltam

horizontes nocturnos

gritam palavras de vento

no deserto futuro.


Sedentos de raízes

meus olhares fogem

do país de vidro.



Sandra Cardoso

domingo, janeiro 07, 2007

ACEITAÇÃO

Ricardo Zerrenner

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
E sentir passar as estrelas
Do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
E assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
Que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
O sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
Nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
Não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar
.

Cecília Meireles

in Melhores Poemas
Maria Fernanda (sel.)
Global Editora, 2006, p.17

sexta-feira, janeiro 05, 2007

DUELO ARTÍSTICO

Artur Franco


Que importa se morrem?
Que importa se crianças,
de barriga grande, deitam espumas,
de tantas cores, pelas bocas?
Só as cores importam.
Qual será a cor das espumas angolanas?
Será castanho frio no zinco castanho quente?

Que importa?
Só o amor importa.
O nosso amor,
o nosso amor pela nossa vizinha.
Nasce-me água na boca,
(água, não espuma),
porque a nossa vizinha é óptima.
A nossa vizinha é soberba.
Certamente existe um deus, senão,
como poderia existir a nossa vizinha?


José Luís Peixoto
in JL 945, Jan. 2007 p.8

Nota: José Luís Peixoto publicou este poema em 1992, aos 17 anos, no JL nº510, na secção "A Prova dos Novos".

domingo, dezembro 31, 2006

Geisa Cruvinel

Querido amigo:

Tenho pensado muito em ti, nestes últimos dias.

Todos falam na mudança de ano. E é mesmo por isso que eu penso em ti, porque vamos ter algo de novo, finalmente, e já não precisas de ir para o colégio. De certeza que, com este ano novo, as casas de banho da nossa escola já vão ter papel higiénico, e já vamos poder lavar as mãos com sabonete e secá-las sem ser na nossa roupa! E também devem substituir o coberto, onde nos abrigamos durante os dias em que está a chover, por uma sala grande e quente onde nos possamos divertir. E de certeza que vão tratar do chão do recreio, que é em terra, e em dias de chuva é de lama!. Lembras-te quando o Gonçalo te empurrou e caíste direitinho na poça?! Foi uma risota, mas tu é que não achaste piada nenhuma!! Uma semana em casa doente por teres estado o dia todo com a roupa molhada...

Um novo ano...Eu sei que tudo isto já existe há mais de dez, disse-me a minha prima que também andou na nossa escola, eu sei, mas agora vai ocorrer uma mudança e não acredito que seja só mudar o 6 para o 7. Se fosse só isso, para quê tanta azáfama?!! Algo mais tem de acontecer, não achas?

Um beijinho

Ana

P.S. Se não nos virmos antes, desejo-te um feliz, mesmo muito feliz 2007 !


segunda-feira, dezembro 25, 2006

Pedro Fernandes




Nada te obriga, nesta tarde fria

Aos passos duros, sujos e frenéticos

Tosca peregrinação alucinada

Ao templo atulhado de vazios.

Liberta a alma, olha para o nada!...



Margarida Correia
2006

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Dá que pensar, 10

Erik Reis

" Os huincas são pessoas, morrem como os mapuche, mas comportam-se como demónios. No Norte, queimaram vivas tribos inteiras. Querem que aceitemos o seu deus pregado numa cruz, deus da morte, que nos submetamos ao seu rei, que não vive aqui e que não conhecemos, querem ocupar a nossa terra e fazer de nós seus escravos. Porquê, pergunto-vos eu? Por nada, irmãos. Eles não apreciam a liberdade. Não entendem o orgulho, são obedientes, põem-se de joelhos no chão e baixam a cabeça. Não sabem nada de justiça ou retribuição. Os huincas são loucos mas são loucos malévolos. E eu digo-vos irmãos, que nunca seremos seus prisioneiros, e morreremos lutando."

Isabel Allende

in Inés da Minha Alma
Difel, 2006, p.295

Nota: Os Huincas são os espanhóis que conquistaram e fundaram o Chile. Os Mapuche são os índios que habitavam nessa região.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

MAR MEU

Rafael Almeida


Estás ali: quando a terra acaba
Começas tu – mar meu
Como fico extasiado só de te ver assim calmo, ondulado na minha paisagem
Eu sou terra, tu és mar

Aventurei-me a navegar nas tuas águas serenas
A embarcação era frágil mas carregava cheia, vontade
E fui

Teu coral reflectia o encanto interior
E será sempre bonito a qualquer olhar lúcido
Nas ondas da paixão me entreguei
Balancei atordoado
Sinto que já não sou terra no barco mas só água – tua
Fiz-me líquido para me moldar às tuas formas
Que bem que fiquei
Coexisto alagado, sem querer regressar
Contigo flutuo sem sequer saber nadar
Deste-me a mão
Levaste-me na tua corrente a passear às profundezas
Perdemo-nos mutuamente
Depois pingamos fragmentos de felicidade
E continuamos assim molhados de saudade

Na insossa realidade esvaída de arte
Dedicaste o poema sentido
Levei a música ao teu festival
E tudo isto ficou pintado com tuas cores no vitral...

O farol adivinha tempestades
Pois que adivinhe, eu prefiro-te a ti
Apenas importa que não percas o teu sorriso lindo

Mar meu: não consigo ignorar-te
Tenho sede da tua água que nunca me basta
Ao menos, espero um dia consintas afogar-me em ti
E fazer parte do teu líquido estrutural

Sei que na tua imensidão oceânica
Abraças outras praias, outras terras
E como tenho inveja, ciúme dessas felizes areias acariciadas
Queria ser um rio – o único - que te enchesse de recordações
Mas existem outros (mais importantes) que também aspiram a essa felicidade
Não posso competir e existo só para verificar que cuidas de ti

No limiar das forças procuro o sal da tua alma
Que me tempera a existência
E não receio engrossar uma fila
Num qualquer consultório de hipertensos

Sim, fiquei viciado em ti
Na substância que te corre nas veias e alimenta o nosso mundo e outros
Sou dependente

Mas um maremoto devolveu-me à condição esquecida
Agora, quero apenas esperar na tua praia
E sonhar que voltes numa próxima maré...


Celso Silva
2004

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Canto dos Sonhos, 9

CORPO DE AROMA

X. Maya

Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como um lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância, linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.

António Ramos Rosa

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p.503

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Canto dos Sonhos, 8

A ÁRVORE DO SILÊNCIO





Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


Vitorino Nemésio

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p. 420

terça-feira, dezembro 05, 2006

Inche Lautaro!

Bart


"Lautaro foge de Santiago na noite mais escura de Verão, sem ser visto pelas sentinelas e sem alertar os cães, que o conhecem. Corre pela ribeira do Mapocho, escondido pela vegetação de canas e fetos. Não usa a ponte de cordas dos huincas, atira-se às águas negras e nada, com um grito de felicidade sufocado no peito. A água fria lava-o por dentro e por fora, deixando-o limpo do odor dos huincas. Com grandes braçadas, cruza o rio e emerge na outra margem recém-nascido. Inche Lautaro! Sou Lautaro!, grita."

Isabel Allende
in Inés da Minha Alma
Difel, Set.2006, p.293

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Manhã


Alba Luna


Sei o perfume da flor

aberta que em peito

meu amanheceste

alvo.


Claridade azul

rompendo florestas de silêncios.



Sandra Cardoso





sexta-feira, dezembro 01, 2006

Dia Mundial da Sida

Pedro Trigo Moutinho

Tens ... consciência?

Então usa-a!


segunda-feira, novembro 27, 2006

Estado segundo, XXI

Miguel Afonso

AMA COMO A ESTRADA COMEÇA

Mário Cesariny

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa

Eugénio de Andrade (org.)

Campo das Letras, 2000, p.488


domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny

1923-2006

Ponto final

(Nem sempre o ponto é final, pois facilmente pode ser transformado, e deve até poder ser transformado, em dois pontos, ou em ponto e vírgula, ou em ponto de interrogação ou até, o sinal de que eu mais gosto, em reticências ... e aí nascem novas possibilidades!)

Sandra Cardoso

quinta-feira, novembro 23, 2006

Canto dos Sonhos, 7

NON NECESSE EST















Pedro Conceição


É um palco, e um palco de sonho
Com figuras sem dever ...
Ali um destino risonho
Funde sonhar com ser.

Cenário de sonho, ilude-o!
Acção, nunca te dês!
Ficções de interlúdio
Enganai quem vos fez!

E viva a alma a esquecer,
Em transparência alheada,
A vida, que é plebe e mulher,
E a morte, que não é nada!



Fernando Pessoa

in Poesia do Eu
Richard Zenith (org.)
Círc. de Leitores, Set 2006, p.151

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tecelão de Falsidades















Isabel Gomes da Silva


O manto que trago vestido
Teceste-o com as tuas mãos
Com fios de vento e de mar
De sol, de sonho, de luar
Azul em toda a extensão

Traz bordado a oiro e a prata
O canto das aves, o perfume do jasmim
Por qualquer lado que passo
Admiram a sua graça
E o rebordo de marfim

Mas eu vi um fio puxado
No manto que tu me teceste
E agora, por onde passo
Desfaz-se o teu manto lasso
Que ao meu coração trago preso

Escurece tristemente o luar
O sol arrefece o azul do meu mar
E nas canções que o vento me traz
Todo o sonho se desfaz
Só ouço o grito das aves
E o meu perfume já nem tu sabes.


Tecelão, ó Tecelão,
Não sabias que fios atados
De falsidades
Se desfaziam
em mim?


Paulo Medeiros

Sandra Cardoso
in JN, 23 Set. 2006, p.48

terça-feira, novembro 14, 2006

...


















Geoffroy Demarquet


VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Canto dos Sonhos, 7


















Geoffroy Demarquet

DISSE-ME O CEGO NA ESTRADA


Disse-me o cego na estrada,
sem nenhum constrangimento,
Que andar à beira do abismo
é difícil, mas que a luz
avisa, fora das pálpebras
e a direção se conhece
pela brisa sobre a barba.


Ele andava pelos muros,
à beira dos precipícios
funâmbulo e equilibrista,
com o vento aberto na barba
e o sol nas fanadas pálpebras


Os videntes caminhavam
agarrando o muro e o chão,
pisando a sombra do cego
e as palavras que dizia.


Se algum vidente caísse
com toda a certeza, o cego
rápido o levantaria.


Cecília Meireles


in Cecília Meireles
Melhores Poemas
Maria Fernanda (sel.)
Global, 2006, p.160

domingo, novembro 05, 2006

Diálogos soltos, 5

Paulo César


(Não, não é fechar simplesmente. Pressiona-os com as pontas dos dedos para que a penumbra passe a escuridão. Sentirás, então, a passagem para um tempo e um espaço nulos.)


- Vejo um barco, no oceano.

- Impossível. Eu amarrei-o ao cais.

- Soltaram-se os ventos.

- Impossível. Eu recolhi as velas.

- Há muito que as vogais as ergueram.

- Impossível. Eu arranquei a bússola.

- ...

-No oceano, sem bússola ...

sábado, novembro 04, 2006

Diálogos soltos, 4

X. Maya

- Já disse, fecha os olhos!

- Pronto, pronto. Já está.

- Diz-me, diz-me o que vês!

quinta-feira, novembro 02, 2006

Dá que pensar, 6

Pinto da Silva


" Dez minutos. Voltei a entrar. A rapariga, ainda boneca mas apenas grave, disse-me que não valia a pena esperar mais. Magoei-me com o olhar. Não sei que rosto infantil era o meu quando lhe quis dizer que podia esperar muito mais, podia esperar durante anos, talvez ainda viesse mais alguém, havia toda a espécie de possibilidades que existissem pessoas a dirigirem-se para ali partindo de vários pontos, talvez essas pessoas estivessem apenas um pouco atrasadas, quem é que nunca se atrasou? Mas não lhe disse nada. Fiquei a vê-la. Pousou o dinheiro que lhe havia dado minutos antes sobre o tampo amolecido da mesa: a mesma nota e as mesmas moedas. Houve algum pedaço de derrota nos seus gestos. Devolvi-lhe o quadrado de papel carimbado. Fino. Leve no interior dos meus dedos.Talvez a não existir."

José Luís Peixoto

in JL, Ano XXVI
nº941, p.41

quarta-feira, novembro 01, 2006

Lusitana

Rui J. Santos

Montada na garupa do cavalo
Selvagem ao vento pela planície
Montanhosa do passado que calo
Pálido fado meu fio amacie

O mar revolto e um sôfrego talo
De secreto sonho a manhã ondeie
Com suas róseas mãos possa plantá-lo
E meu coração de pedra incendeie

Sandra Cardoso


segunda-feira, outubro 30, 2006

Canto dos sonhos, 6

TEATRO DA BONECA














Pinto da Silva

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.

Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

CARLOS QUEIROS

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Campo das Letras, 3ª ed., p.435

domingo, outubro 29, 2006

...

Raquel

Porque chora
Minha alma
Tão sentida,

Quando rasga
a luz
do meu olhar?

Porque chora
Minha alma
Tão escura,

Incapaz
de ver
o que vai mal?

Porque chora
Minha alma
assim cinzenta,

Pensando
em sol, em luz
em Mar?

Porque chora
minha alma
assim cinzenta,

Esperando
um dia
T'alcançar?

Um dia, sim
hei-de encontrar
a paz, a luz,
a vida, o sol
e o mar ...

Fátima Vilaça

E agora minha amiga, a letra de uma canção que poderá em parte responder a algumas das tuas inquietações ...

Depois Melhora
(Luiz Tatit)

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora e com o tempo
Vira um sentimento que nem sempre aflora
Mas que fica na memória, depois vira um sofrimento
Que corrói tudo por dentro, que penetra no organismo
Que devora, mas depois também melhora

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora e com o tempo
Torna-se um tormento que castiga, deteriora
Feito ave predatória, depois vira um instrumento
De martírio duro e lento, uma queda num abismo
Que apavora, mas depois também melhora

E vira então uma força inexplicável
Que deixa todo o mundo mais amável
Um pouco é consequência da saudade
Um pouco é que voltou a felicidade
Um pouco é que também já era hora
Um pouco é pra ninguém mais ir embora

Vira uma esperança, cresce de um jeito
Que a gente até balança, enfim ...
Às vezes dói bastante, mas melhora
Enfim, é só felicidade aqui, agora
É bom, é bom não falar muito que piora
Enfim, é só felicidade

Ney Matogrosso

in Olhos de Farol

PolyGram, 1998

sábado, outubro 28, 2006

FRAGMENTOS

Hugo


Hoje, é um dia como tantos outros de chuva...mas, hoje, insistes em permanecer em mim. Tens vindo a fazê-lo frequentemente... por breves momentos, em imagens que passam. Hoje, porém, sentas-te e pedes a tua cerveja, sentas-te e acendes o teu cigarro, sentas-te e lês o teu jornal (era o notícias, não era? - Imagino os teus comentários ao que se vai passando por cá!). E quando terminas, descansas a face delicadamente na tua mão, a direita, a do cigarro, e olhas lá para fora. E nesse gesto eternizas uma hora, uma manhã, um dia, uma vida. Pensava eu que olhavas o trânsito, que te distraías com quem passava, mas hoje sei que olhavas o céu e com teus olhos de ave partias para outros mundos.

Tens razão...não te conheci verdadeiramente...mas ninguém te conheceu. Tu não querias. Se te falávamos sorrias e encantavas-nos com palavras sábias sobre o que se passava por cá. Hoje, sei que não era sobre isso que querias conversar. Hoje sei, mas eu tinha vinte anos e aos vinte não se sabe nada...
Como podia adivinhar que quando chegavas a casa e ligavas a televisão no canal dois,( se tu visses a programação agora!), para ouvir a música clássica que passava enquanto o canal não abria...(e eu não compreendia porque havias de ligar a televisão para ouvir música), como havia de adivinhar, nesse gesto, uma máscara social...querendo parecer da terra, navegavas nos sons e saías livre pela janela aberta, misturando-te no vento e com ele viajando por sonhos só teus... A tarde inteira fumavas, a tua companhia, dizias ... e eu não compreendia a solidão , a tua. Ou não queria. Ou não podia ...eu tinha 20 anos ... Só agora sei que mesmo sem escrever era em verso que pensavas. Só agora! E a cerveja já acabou.

Sandra Cardoso

terça-feira, outubro 24, 2006

Dá que pensar, 5

Pedro Moreira


"- Amigo velho, não há que fazer. Como pudeste imaginar que a Andorinha viesse te aceitar como marido? Nunca houve caso... Mesmo se ela te amasse -e quem te afirma que ela te ame?- jamais poderia casar contigo. Desde que o mundo é mundo, às andorinhas é proibido casar com gatos. Essa proibição é mais do que uma lei e está plantada com fundas raízes no coração das andorinhas. Dizes que ela gosta de ti, que se dependesse da sua vontade ... Pode ser, acredito mesmo que sim. Mais forte que ela, porém, é a lei das andorinhas. Porque está dentro dela desde o seu mais velho avô, desde a primeira andorinha. E para romper uma lei, é preciso uma revolução ...
Completou balançando a cabeça:
- Aliás, era até bom que acontecesse uma revoluçãozinha ... Estamos necessitando."


Jorge Amado

in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhã
uma história de amor
Dom Quixote,1ª ed. , p.98

segunda-feira, outubro 23, 2006

Diálogos soltos, 3

vmdcc

- Vê, Marília, o que encontrei.

- Há quanto tempo!

- Há muito tempo!...

- O que o tempo faz!...

- Vamos pintá-las?

- Para quê?!!

Sandra Cardoso

sábado, outubro 21, 2006

Café Concerto
















Maria de Fátima Silveira




Quando te conheci
Eras o concerto
Trompete, Jazz improvisado
Moravas na pauta de música
E a tua janela ficava na segunda linha
Perto da Clave de Sol

O cartaz indicava o café concerto
Da rua do sonho a seguir à travessa da realidade
Não houve respiração quando chegaste
No vestido Semibreve de cristal
E a pouca luz que define a tua silhueta
Causava alegria
A sala cheia, o ambiente tornado íntimo
Também eu estava

O microfone ligado
Foi o passaporte de magia
Cada pedaço teu, feito de som
O ar inundado de emoções
As palavras de veludo
Percorrem a pele arrepiada
E entram dentro de mim
Os teus lábios não escondem nada
Piano de cauda, aberto
Imagino os teus dedos compridos, delicados
Que quase me tocam devagar…

Tanto viver

O teu concerto nunca terminou

Quando te conheci
Corri depressa para agarrar essa noite
Dum tempo que não era meu
Não importa
Porque hoje, ainda recordo a tua voz doce
Como se cantasses só p´ra mim




Celso Silva
2006

quarta-feira, outubro 18, 2006

CONDICIONAIS


Se
Se as
Se as frágeis
Se as frágeis pequenas
Se as frágeis pequenas leves
Se as frágeis pequenas leves inocentes
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as mãos
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as mãos para
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as mãos para formar
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as mãos para formar o
Se as frágeis pequenas leves inocentes gotículas de água dão as mãos para formar o nevoeiro


por

que

razão

não

as

dão


os



professores?


Sandra Cardoso

terça-feira, outubro 17, 2006

O Canto dos Sonhos, 5



O PORTUGAL FUTURO





















imagem de Graça



O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo

in Todos os Poemas II
Assírio & Alvim, 2ª ed.,p.147

domingo, outubro 15, 2006

DÁ QUE PENSAR, 4

autor desconhecido


" (...) Neste momento, Portugal é um mistério. É impossível a gente calcular o que virá a ser dele! É uma Pátria que a noite envolve, entregue aos morcegos e às aves agoureiras. Aqui, não se vê um palmo adiante do nariz; é tudo confusão e sombra. (...)"

Teixeira de Pascoaes
Fevereiro de 1908

in Cartas de Autores Portugueses
Correios e Telecomunicações de Portugal,
1987, p.68

sexta-feira, outubro 13, 2006

Diálogos Soltos, 2

Vitor Reinecke

-Dá-me a mão.

-Para onde me levas?

-Fecha os olhos e confia em mim!

-Preciso de ver por onde vou.

-Se não fechares os olhos, nunca verás.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Tout le Temps, Tout le Temps

Alba Luna



J'ai appris de lui
Tout,
Les gestes et les cris
Tout,
Les baisers bouleversants
Et les mots difficiles
Réveil sans
Domicile
... Oser
Ce qu'il ose

J'ai appris pour lui
La
Souffrance et l'envie
La
Jalousie comme une corde
Ce désordre des sens
L' indécence
Et le coeur
A tordre
Toutes ces choses

Oui
Tout le temps, tout le temps
Oui
Tout le temps, pour lui
Je dépense mon temps
Je dépends ma vie ...

Même s'il m'aime par à-coups
Si je suis pour lui qu'une page
Un peu de son paysage,
Je pense à lui malgré tout
En silence
Sans violence
Aussi
Avec violence ...

Surtout pas me faire
Plaindre
Surtout pas me faire
Peindre
En petite fille bien gentille
Je suis tombée toute seule
Toute seule dans
Sa petite gueule
De loup
Et c'est tout


ELSA

in Elsa L'essentiel 1986-1993
Les Editions Productions Georges Mary
EMI Music

domingo, outubro 08, 2006

A FLOR












imagem de Kiko

Não era essa, meu amor, a flor
Secreta há tantos dias protegida
Da claridade de um beijo de vida
Da escuridão de uma chama de dor

Não era essa, meu amor, a flor
Amada há tantos dias prometida
Na rima para uma canção proibida
Nos versos para um poema de amor

E se essa que hoje me colheste encanta
De aromas mil olhares de mais além
Sabe que a nossa flor de vida tanta

Cresce bela na terra de ninguém
Feliz à chuva e ao sol livre canta
Com letra de vento e música d'outrem

Sandra Cardoso
in JN, 4 Nov., p.48

sexta-feira, outubro 06, 2006

DÁ QUE PENSAR, 3


"-Tens muito que fazer?
-Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto cansa e mata; morrer-se sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço.)"


Sebastião da Gama

in Diário de Sebastião da Gama
Edições ÁTICA, Outubro 1996, p. 83

quinta-feira, outubro 05, 2006

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

Explicações

















imagem de Karina

Pois o meu aluno, comparando o meu trabalho com o de um operário da construção civil, disse:

- Os professores não fazem nada! Custa alguma coisa ser professor?Projectam uma imagem, os alunos falam da imagem, os alunos escrevem sobre a imagem e os professores ficam a olhar para nós. Ainda dizem que trabalham, os trolhas é que trabalham!

Fiquei a olhar para ele. Como explicar a um aluno de 12 anos que o meu trabalho, bem como o de muitas outras pessoas, é intelectual e não físico? Como explicar a um aluno de 12 anos que, para estar ali, serenamente, na frente dele e de mais 25 como ele, com estratégias e actividades diversificadas, precisava de cerca de duas horas para preparar a aula e que, muitas vezes, trabalhava pela noite dentro, sacrificando horas de descanso merecido? Como explicar a um aluno de 12 anos que, enquanto Professora de Língua Portuguesa, tenho como objectivo desenvolver a expressão escrita dele e dos seus colegas e é por isso que lhe peço, semanalmente, textos escritos, a ele e aos seus colegas e a mais quatro turmas como as dele? Como explicar a um aluno de 12 anos que passo grande parte do meu fim-de-semana a corrigir os trabalhos dele e de mais 125 como ele?

Como explicar isto a um aluno de 12 anos e à sociedade portuguesa?

Sandra Cardoso
in JN
05.X.2006, p.20

quarta-feira, outubro 04, 2006

Lunático



Não posso dar-te a lua, disseste-me.

Eu sorri.

Ainda não sabias que me tinhas dado

O SOL

Sandra Cardoso

1ª imagem:autor desconhecido

2ª imagem: Roberto de Bem

segunda-feira, outubro 02, 2006

O Canto dos Sonhos, 4

Que súplica imprecisa nos ruídos
presenças indizíveis no meu quarto
a soprar vendavais nos meus ouvidos
e a seguir-me com pálpebras paradas.

Quem vem assim colher o que deixou
um naufrágio perdido no meu sangue?
Como abelha a sugar a flor da alma
liberta. Mas exangue.

Natália Correia,1955

in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I
Círculo de Leitores, 1993, p.87

sábado, setembro 30, 2006

Talvez


O meu coração desfaz-se em pétalas mil
Lanço-as ao vento
Talvez um pássaro passe
E as leve
Suavemente
E as solte
Talvez
E ternamente
O meu coração
Floresça
Num sorriso fértil.

Sandra Cardoso

quinta-feira, setembro 28, 2006

O GRITO



















O Grito, 1893

Edvard Munch
(1863-1944)


«Munch descreveu assim a experiência que o levou a pintar a sua obra-prima: "Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto-azulado.
Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito, da natureza.»

in MUNCH
Grandes Pintores do Século XX
Globus, 1995, imagem 11

Nota: Felizmente O Grito voltou para casa. Encontra-se, novamente, no Museu Munch, em Oslo, na Noruega. Esperemos que, desta vez, seja para sempre.

quarta-feira, setembro 27, 2006

O Canto dos Sonhos, 3


A TUA MORTE EM MIM


imagem de Alexandre Costa


A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos de um livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.


Adolfo Casais Monteiro

(Excerto)
À memória de Raquel Moacir


in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
de Eugénio de Andrade
Campo de Letras, 3ª ed., p.438

domingo, setembro 24, 2006

Diálogos soltos


imagem de Rafaela Silva



- O que achaste da minha cara metade?
- Bonita, muito bonita. E tu, o que achas?
- De quê?
- Da outra metade?

sábado, setembro 23, 2006

DÁ QUE PENSAR, 2

imagem de Filipa Mateus

"O hospital é um gigantesco edifício atravessado por corredores , onde nunca é de noite nem muda a temperatura, o dia deteve-se nas lâmpadas e o Verão nos aquecedores. As rotinas repetem-se com ardilosa precisão; é o reino da dor, aqui chega-se para sofrer, assim o compreendemos todos. As misérias da doença igualam-nos, não há ricos nem pobres, ao atravessar este umbral os privilégios desfazem-se em fumo e tornamo-nos humildes."

Isabel Allende
in Paula
Tradução de José Carlos Gonzalez
Círculo de Leitores, 1996, p.114

sexta-feira, setembro 22, 2006

como por MAGIA

imagem de Gonçalo Simões

Recolheste todos os vidros

Do espelho (re)partido

Que eras.

Colaste-os

Um a um

E, finalmente,

Encontraste-te.

Maravilhosamente

Encontrámos-te.

Tu

Nua

Tu

Una

Tu.

Depois

Como por magia

Partiste

(Te)

Sorrindo ...

Sandra Cardoso

quinta-feira, setembro 21, 2006

NO MAN'S LAND













imagem de Pedro Peralta


Neste momento
Estou contigo
Mas sei que és já memória
De um sonho
Que eu nunca quis
(Ou terei querido?)

A moldura que me deste
Prego-a na parede da minha alma
E quando quiser
Vou lá olhar-te.

A moldura não dói.



Sandra Cardoso

quarta-feira, setembro 20, 2006

A veia do poeta


imagem de Sissi

Cansado do movimento
Que percorre a linha recta
Fui ficando mais atento
Ao voo da borboleta
Fui subindo em espiral
Declarando-me estafeta
Entre o corpo do real
E a veia do poeta

Mas ela não se detecta
À vista desarmada
E o sangue que lá corre
Em torrente delicada
É a lágrima perpétua
Sai da ponta da caneta
Vai ao fim da via láctea
E cai no fundo da gaveta

Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
Numa folha secreta
Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
No fundo de uma gaveta
Ai de quem nunca injectou
Um pouco da sua mágoa
Na veia do poeta


Carlos Tê/Rui Veloso

in A espuma das Canções
2005 EMI Music Portugal, Lda