quarta-feira, abril 25, 2007

Crianças

Artur Franco


Nós, as crianças,

Queremos brincar

Em liberdade

Em qualquer lugar.



Queremos brincar aqui,

Sem haver prisões, sem armas, sem tiros e sem ladrões.



Não queremos mais a fome.

Não queremos mais a guerra.

Não queremos mais o ódio.

Não queremos mais mentira.

Queremos paz em toda a Terra.



Queremos brincar ao sol,

Como uma flor.

Nós, as crianças,

Queremos amor!


Nota: Este foi o primeiro poema que eu disse em público. Deveria ter cerca de seis anos. Infelizmente, não sei quem é o autor. Mas o poema...nunca mais o esqueci. A mensagem continua actual.

terça-feira, abril 24, 2007

Dá que pensar, 13

Sandra Cardoso

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial do Livro

A.M.Pinto da Silva

Um livro é um amigo eterno.

Sandra Cardoso

Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais.

Tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade

Ofício de Paciência

quinta-feira, abril 19, 2007

Diálogos soltos, 9

Erik Reis


- Carro novo ... Parabéns!
- Bem, não é o carro dos meus sonhos ...
- Que sorte! Assim podes continuar a sonhar!

quarta-feira, abril 18, 2007

LES SÉPARÉS

N'écris pas.
Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas.
N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas.
Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !



Marceline Desbordes-Valmore
(1786-1859)

terça-feira, abril 17, 2007

Diálogos soltos, 8

Pedro Soares
- Para sempre?
- Para ... sempre.
- Achas demais?
- Sonhar nunca é demais !

sexta-feira, abril 13, 2007

TESTAMENTO

Luís Rosa


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Ana Luísa Amaral

Minha Senhora de Quê
Quetzal Editores
Lisboa, 1999

quarta-feira, março 28, 2007

À espera do poema, 2

Joana Homem da Costa

... ser das palavras a voz

grito d'alma em terra d'amor

ou grito d'amor em terra d'alma ...

Sandra Cardoso

terça-feira, março 20, 2007

À espera do poema,1

A.M. Pinto da Silva

... ouvi gargalhadas de sonho
e um sorriso lento espreguiçou-se em mim...

sábado, março 17, 2007

PELE

Pipoca

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira


segunda-feira, março 12, 2007

Diálogos Soltos, 7

Marta Ferreira

-Em que é que estás a pensar?

-Em nada.


quinta-feira, março 08, 2007

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O PREÇO DE UM SONO TRANQUILO OU O HOMEM QUE MORREU DE AMOR



Bart

Muitas vezes, misturo-me na multidão, para não pensar. Ouço as vozes, observo todas as pessoas que passam por mim, olho as montras, os preços, espero pelo sinal verde, atravesso estradas, ouço o barulho dos automóveis e, enquanto me distraio com o ruído, não me ouço, esqueço-me, quase me anulo na multidão. Porque a minha voz, quando me deito no silêncio da noite, a minha voz quase não acreditando que é minha, a minha voz a sugerir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a pedir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a impor aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, não me dá tréguas. E só consigo adormecer quando ouço que era para bem deles, que a vida deles era um inferno, acordar às quatro horas da manhã e ver que a minha avó tinha colocado todas as roupas que possuía no chão e tinha feito uma trouxa e queria encontrar a porta para se ir embora e que eles não conseguiam dormir e que tinha arrancado a fralda e eram mais dois lençóis e um edredon, mais dois porque já tinha sido assim a semana inteira e que, além disso, tinham de ouvir os insultos da minha avó e os gritos e as agressões e que, no dia seguinte, a minha mãe tinha de trabalhar e que não podiam deixar de olhar para ela um segundo, porque ela podia fugir como já fizera tantas vezes, podia saltar novamente o muro da nossa casa e magoar-se, porque era melhor para ela, para eles, para mim ... Só assim é que eu consigo adormecer, por algumas horas, sabendo que antecipei a morte da minha avó, para salvar a saúde mental dos meus pais, porque, por muito bons que sejam os lares, ninguém trata melhor a nossa mãe, a nossa avó, do que nós...

Felizmente, os meus pais tinham algum dinheiro para pagar a prestação de um lar....estiveram à espera de vaga nos outros, nos do Estado, mas não havia...não havia... nos do Estado não há vagas para os idosos, o que importa os idosos? E os meus pais conseguiram pagar para terem um pouco de paz, (se é paz ir visitar a nossa mãe a um lar...).

Agora, uma outra imagem me atormenta, o desespero daquele homem obrigado a cometer um crime no final da sua vida, uma vida honrada, porque só um homem da altos valores poderia ter tamanho acto de amor, o desespero de não ter tido resposta de uma sociedade que aponta a justiça social como um dos seus valores fundamentais, o desespero de quem grita e não é ouvido. E atormenta-me saber que há tantos homens e mulheres e crianças que estão a gritar neste momento e eu estou aqui, com a cabeça na almofada, sem conseguir fechar os olhos, porque ouço o desespero da solidão daquele homem, ouço o seu grito mudo e sinto os tiros que entram em mim como sirenes de revolta ...

Assusta-me saber que não adianta pedir, reclamar, participar em manifestações, em greves...assusta-me esta impotência a que o cidadão comum chegou ...assusta-me que a única solução daquele homem tenha sido aquela, porque, acreditem, visto daqui e agora, continuo a achar que nós não tínhamos solução para aquele homem. E por isso não durmo. Não consigo, porque penso no estado das coisas e no Estado. Será que à noite, apagadas as luzes do dia, quando pousa a cabeça na almofada, o Estado consegue fechar os olhos e dormir um sono tranquilo?

Sandra Cardoso

p.s. esta reflexão vem no seguimento da notícia de um idoso que matou a mulher, doente de Alzheimer, e que se suicidou em seguida.


terça-feira, março 06, 2007

Pedro Rodrigues

Foi neste dia

Que desceste do céu e sopraste um brilho de luz no meu coração!


segunda-feira, março 05, 2007

RENTE AO CHÃO





A.M.Pinto da Silva

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de março rastejando ainda.




Eugénio de Andrade

in O Outro Nome da Terra

Ed. Limiar, Out.1988, p. 29

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

...

Sérgio Redondo

Quanto vale uma hora de vida?



segunda-feira, fevereiro 26, 2007

...

Jorge Bica

há manhãs de chuva
que molham a alma
apenas pelo lado de fora

há tardes de sol
que queimam o corpo
realidade adentro

há noites de luar
que riscam a vermelho
o peito desiludido dorido enxuto
de tanto esperar pelo dia seguinte

tu tu banhas as pétalas
do meu sonho revolto envolto
em círculos ténues
de tempestades perenes
de verdadeiro estio
e estás sempre pronta a irrigar
de pranto de alegria de esperança
o meu plantio isto é
as minhas terras de cultivo

Manuel Fontão


segunda-feira, fevereiro 19, 2007

CHUVA

A.M.Pinto da Silva

Chove.

A grua indica o caminho.
A gaivota pousa na grua.
Olha o mar.

Chove.
Em que pensará a gaivota pousada na grua
Alta
Olha o mar
Olha a minha sala
Olha-me sentada no sofá ou deitada
O sofá
A gaivota à chuva olha o mar
Eu sentada ou deitada ouço o mar
E não chove
No sofá
Não
Chove
Na grua alta que mostra o mar à gaivota
E a mim
O que mostra o sofá?
A gaivota parte
E a mim
O que mostra o sofá?
Fica a grua
Fica o sofá

Fico.

O que mostra o sofá?

Chove.

Sandra Cardoso

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cadastrado

Evandro Monteiro


Uma vez, aos sete anos,

partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja

Dez anos depois, conduzindo um carro,

não parou num cruzamento de rua

onde havia um sinal de stop.

Dois anos depois, teve uma briga

num bar, e partiu a cabeça a um amigo

com uma garrafa de cerveja.

Quando se recusou a combater no Viet-Nam,

o seu cadastro provara como desde a infância,

sempre manifestara sentimentos

nitidamente de traidor à pátria.

12 de Agosto de 1969(?)

Jorge de Sena


in Poesia de Jorge de Sena

Ed. Comunicação, 1985, p.179





quarta-feira, fevereiro 07, 2007

...

K.O.T.A.



ENCONTRO DE ESCRITORES DE EXPRESSÃO IBÉRICA



correntesD'escritas




sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dá que pensar, 12

Ricardo Jorge


"Saíram juntos da exposição e foram continuar a conversa no terraço de um bar, sob as estrelas, defronte às águas negras da baía. Nessa noite, contou-me Félix, só ele falou. Ângela Lúcia possui um talento raro: é capaz de manter acesa uma conversa sem quase participar nela. Depois o meu amigo regressou a casa e disse-me:
«Conheci uma mulher extraordinária. Ah, meu caro, faltam-me as palavras certas para a definir - tudo nela é luz!»
Achei um exagero. Onde há luz, há sombras."


José Eduardo Agualusa

in O Vendedor de Passados
Publ. D. Quixote, 2006, p.151

terça-feira, janeiro 23, 2007

Diálogos soltos, 6

Zé Pedro

- Até amanhã!
- Adeus. Adeus. Adeus.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Dá que pensar, 11


K.O.T.A.

"Em Portugal, 18 mil mulheres abortaram ilegalmente em 2005. 350 mil portuguesas fizeram-no pelo menos uma vez na vida. Estes números revelam a amplitude e a brutalidade de uma realidade escondida.

Estes dados são retirados de um inquérito sistemático sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG). O estudo destaca a solidão das mulheres confrontadas com uma gravidez não desejada, por vezes pouco informadas sobre práticas contraceptivas, e que abortam sem apoio social ou médico. Segundo o estudo, 64,1% das mulheres portuguesas que reconheceram terem abortado em 2005 não tiveram apoio médico e 34,9% fizeram-no num domicílio particular. 72,5% destas mulheres foram informadas, por amigas, sobre a prática do aborto. 46,1 % não usavam qualquer método contraceptivo. Mais de metade têm uma idade entre os 17 e os 24 anos. 25% tomaram a decisão sozinhas e 40,8% consideraram ter sido uma decisão "extremamente difícil".

Perguntadas sobre o método utilizado 35% referem a raspagem, 25% a tomada de comprimidos e 23% a aspiração. Além dissso, 16% afirmaram desconhecer o método utilizado com elas.

Segundo Duarte Vilar, director da AFP, os números estarão abaixo da realidade. " Num país onde a IVG é ainda ilegal, é muito provável que um número importante de mulheres não se atreva a reconhecer a sua prática", sublinha.
Em Portugal, um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a pedido da mulher, nas primeiras dez semanas de gravidez, vai realizar-se no próximo dia 11 de Fevereiro. "


JPS/Fonte:AFP
in "A Página da Educação"
nº163, Jan. 2007, p.4

domingo, janeiro 14, 2007













Alba Luna



Sedentas de olhares

minhas raízes rasgam

solos duros

riscam palavras de luz

no granito escuro.


Sedentas de olhares

minhas raízes lançam-se

no oceano obscuro

dançam palavras de sol

na água gélida.


Sedentas de olhares

minhas raízes saltam

horizontes nocturnos

gritam palavras de vento

no deserto futuro.


Sedentos de raízes

meus olhares fogem

do país de vidro.



Sandra Cardoso

domingo, janeiro 07, 2007

ACEITAÇÃO

Ricardo Zerrenner

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
E sentir passar as estrelas
Do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
E assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
Que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
O sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
Nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
Não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar
.

Cecília Meireles

in Melhores Poemas
Maria Fernanda (sel.)
Global Editora, 2006, p.17

sexta-feira, janeiro 05, 2007

DUELO ARTÍSTICO

Artur Franco


Que importa se morrem?
Que importa se crianças,
de barriga grande, deitam espumas,
de tantas cores, pelas bocas?
Só as cores importam.
Qual será a cor das espumas angolanas?
Será castanho frio no zinco castanho quente?

Que importa?
Só o amor importa.
O nosso amor,
o nosso amor pela nossa vizinha.
Nasce-me água na boca,
(água, não espuma),
porque a nossa vizinha é óptima.
A nossa vizinha é soberba.
Certamente existe um deus, senão,
como poderia existir a nossa vizinha?


José Luís Peixoto
in JL 945, Jan. 2007 p.8

Nota: José Luís Peixoto publicou este poema em 1992, aos 17 anos, no JL nº510, na secção "A Prova dos Novos".

domingo, dezembro 31, 2006

Geisa Cruvinel

Querido amigo:

Tenho pensado muito em ti, nestes últimos dias.

Todos falam na mudança de ano. E é mesmo por isso que eu penso em ti, porque vamos ter algo de novo, finalmente, e já não precisas de ir para o colégio. De certeza que, com este ano novo, as casas de banho da nossa escola já vão ter papel higiénico, e já vamos poder lavar as mãos com sabonete e secá-las sem ser na nossa roupa! E também devem substituir o coberto, onde nos abrigamos durante os dias em que está a chover, por uma sala grande e quente onde nos possamos divertir. E de certeza que vão tratar do chão do recreio, que é em terra, e em dias de chuva é de lama!. Lembras-te quando o Gonçalo te empurrou e caíste direitinho na poça?! Foi uma risota, mas tu é que não achaste piada nenhuma!! Uma semana em casa doente por teres estado o dia todo com a roupa molhada...

Um novo ano...Eu sei que tudo isto já existe há mais de dez, disse-me a minha prima que também andou na nossa escola, eu sei, mas agora vai ocorrer uma mudança e não acredito que seja só mudar o 6 para o 7. Se fosse só isso, para quê tanta azáfama?!! Algo mais tem de acontecer, não achas?

Um beijinho

Ana

P.S. Se não nos virmos antes, desejo-te um feliz, mesmo muito feliz 2007 !


segunda-feira, dezembro 25, 2006

Pedro Fernandes




Nada te obriga, nesta tarde fria

Aos passos duros, sujos e frenéticos

Tosca peregrinação alucinada

Ao templo atulhado de vazios.

Liberta a alma, olha para o nada!...



Margarida Correia
2006

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Dá que pensar, 10

Erik Reis

" Os huincas são pessoas, morrem como os mapuche, mas comportam-se como demónios. No Norte, queimaram vivas tribos inteiras. Querem que aceitemos o seu deus pregado numa cruz, deus da morte, que nos submetamos ao seu rei, que não vive aqui e que não conhecemos, querem ocupar a nossa terra e fazer de nós seus escravos. Porquê, pergunto-vos eu? Por nada, irmãos. Eles não apreciam a liberdade. Não entendem o orgulho, são obedientes, põem-se de joelhos no chão e baixam a cabeça. Não sabem nada de justiça ou retribuição. Os huincas são loucos mas são loucos malévolos. E eu digo-vos irmãos, que nunca seremos seus prisioneiros, e morreremos lutando."

Isabel Allende

in Inés da Minha Alma
Difel, 2006, p.295

Nota: Os Huincas são os espanhóis que conquistaram e fundaram o Chile. Os Mapuche são os índios que habitavam nessa região.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

MAR MEU

Rafael Almeida


Estás ali: quando a terra acaba
Começas tu – mar meu
Como fico extasiado só de te ver assim calmo, ondulado na minha paisagem
Eu sou terra, tu és mar

Aventurei-me a navegar nas tuas águas serenas
A embarcação era frágil mas carregava cheia, vontade
E fui

Teu coral reflectia o encanto interior
E será sempre bonito a qualquer olhar lúcido
Nas ondas da paixão me entreguei
Balancei atordoado
Sinto que já não sou terra no barco mas só água – tua
Fiz-me líquido para me moldar às tuas formas
Que bem que fiquei
Coexisto alagado, sem querer regressar
Contigo flutuo sem sequer saber nadar
Deste-me a mão
Levaste-me na tua corrente a passear às profundezas
Perdemo-nos mutuamente
Depois pingamos fragmentos de felicidade
E continuamos assim molhados de saudade

Na insossa realidade esvaída de arte
Dedicaste o poema sentido
Levei a música ao teu festival
E tudo isto ficou pintado com tuas cores no vitral...

O farol adivinha tempestades
Pois que adivinhe, eu prefiro-te a ti
Apenas importa que não percas o teu sorriso lindo

Mar meu: não consigo ignorar-te
Tenho sede da tua água que nunca me basta
Ao menos, espero um dia consintas afogar-me em ti
E fazer parte do teu líquido estrutural

Sei que na tua imensidão oceânica
Abraças outras praias, outras terras
E como tenho inveja, ciúme dessas felizes areias acariciadas
Queria ser um rio – o único - que te enchesse de recordações
Mas existem outros (mais importantes) que também aspiram a essa felicidade
Não posso competir e existo só para verificar que cuidas de ti

No limiar das forças procuro o sal da tua alma
Que me tempera a existência
E não receio engrossar uma fila
Num qualquer consultório de hipertensos

Sim, fiquei viciado em ti
Na substância que te corre nas veias e alimenta o nosso mundo e outros
Sou dependente

Mas um maremoto devolveu-me à condição esquecida
Agora, quero apenas esperar na tua praia
E sonhar que voltes numa próxima maré...


Celso Silva
2004

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Canto dos Sonhos, 9

CORPO DE AROMA

X. Maya

Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como um lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância, linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.

António Ramos Rosa

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p.503

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Canto dos Sonhos, 8

A ÁRVORE DO SILÊNCIO





Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


Vitorino Nemésio

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p. 420

terça-feira, dezembro 05, 2006

Inche Lautaro!

Bart


"Lautaro foge de Santiago na noite mais escura de Verão, sem ser visto pelas sentinelas e sem alertar os cães, que o conhecem. Corre pela ribeira do Mapocho, escondido pela vegetação de canas e fetos. Não usa a ponte de cordas dos huincas, atira-se às águas negras e nada, com um grito de felicidade sufocado no peito. A água fria lava-o por dentro e por fora, deixando-o limpo do odor dos huincas. Com grandes braçadas, cruza o rio e emerge na outra margem recém-nascido. Inche Lautaro! Sou Lautaro!, grita."

Isabel Allende
in Inés da Minha Alma
Difel, Set.2006, p.293

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Manhã


Alba Luna


Sei o perfume da flor

aberta que em peito

meu amanheceste

alvo.


Claridade azul

rompendo florestas de silêncios.



Sandra Cardoso





sexta-feira, dezembro 01, 2006

Dia Mundial da Sida

Pedro Trigo Moutinho

Tens ... consciência?

Então usa-a!


segunda-feira, novembro 27, 2006

Estado segundo, XXI

Miguel Afonso

AMA COMO A ESTRADA COMEÇA

Mário Cesariny

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa

Eugénio de Andrade (org.)

Campo das Letras, 2000, p.488


domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny

1923-2006

Ponto final

(Nem sempre o ponto é final, pois facilmente pode ser transformado, e deve até poder ser transformado, em dois pontos, ou em ponto e vírgula, ou em ponto de interrogação ou até, o sinal de que eu mais gosto, em reticências ... e aí nascem novas possibilidades!)

Sandra Cardoso

quinta-feira, novembro 23, 2006

Canto dos Sonhos, 7

NON NECESSE EST















Pedro Conceição


É um palco, e um palco de sonho
Com figuras sem dever ...
Ali um destino risonho
Funde sonhar com ser.

Cenário de sonho, ilude-o!
Acção, nunca te dês!
Ficções de interlúdio
Enganai quem vos fez!

E viva a alma a esquecer,
Em transparência alheada,
A vida, que é plebe e mulher,
E a morte, que não é nada!



Fernando Pessoa

in Poesia do Eu
Richard Zenith (org.)
Círc. de Leitores, Set 2006, p.151

sexta-feira, novembro 17, 2006

Tecelão de Falsidades















Isabel Gomes da Silva


O manto que trago vestido
Teceste-o com as tuas mãos
Com fios de vento e de mar
De sol, de sonho, de luar
Azul em toda a extensão

Traz bordado a oiro e a prata
O canto das aves, o perfume do jasmim
Por qualquer lado que passo
Admiram a sua graça
E o rebordo de marfim

Mas eu vi um fio puxado
No manto que tu me teceste
E agora, por onde passo
Desfaz-se o teu manto lasso
Que ao meu coração trago preso

Escurece tristemente o luar
O sol arrefece o azul do meu mar
E nas canções que o vento me traz
Todo o sonho se desfaz
Só ouço o grito das aves
E o meu perfume já nem tu sabes.


Tecelão, ó Tecelão,
Não sabias que fios atados
De falsidades
Se desfaziam
em mim?


Paulo Medeiros

Sandra Cardoso
in JN, 23 Set. 2006, p.48

terça-feira, novembro 14, 2006

...


















Geoffroy Demarquet


VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Canto dos Sonhos, 7


















Geoffroy Demarquet

DISSE-ME O CEGO NA ESTRADA


Disse-me o cego na estrada,
sem nenhum constrangimento,
Que andar à beira do abismo
é difícil, mas que a luz
avisa, fora das pálpebras
e a direção se conhece
pela brisa sobre a barba.


Ele andava pelos muros,
à beira dos precipícios
funâmbulo e equilibrista,
com o vento aberto na barba
e o sol nas fanadas pálpebras


Os videntes caminhavam
agarrando o muro e o chão,
pisando a sombra do cego
e as palavras que dizia.


Se algum vidente caísse
com toda a certeza, o cego
rápido o levantaria.


Cecília Meireles


in Cecília Meireles
Melhores Poemas
Maria Fernanda (sel.)
Global, 2006, p.160

domingo, novembro 05, 2006

Diálogos soltos, 5

Paulo César


(Não, não é fechar simplesmente. Pressiona-os com as pontas dos dedos para que a penumbra passe a escuridão. Sentirás, então, a passagem para um tempo e um espaço nulos.)


- Vejo um barco, no oceano.

- Impossível. Eu amarrei-o ao cais.

- Soltaram-se os ventos.

- Impossível. Eu recolhi as velas.

- Há muito que as vogais as ergueram.

- Impossível. Eu arranquei a bússola.

- ...

-No oceano, sem bússola ...

sábado, novembro 04, 2006

Diálogos soltos, 4

X. Maya

- Já disse, fecha os olhos!

- Pronto, pronto. Já está.

- Diz-me, diz-me o que vês!

quinta-feira, novembro 02, 2006

Dá que pensar, 6

Pinto da Silva


" Dez minutos. Voltei a entrar. A rapariga, ainda boneca mas apenas grave, disse-me que não valia a pena esperar mais. Magoei-me com o olhar. Não sei que rosto infantil era o meu quando lhe quis dizer que podia esperar muito mais, podia esperar durante anos, talvez ainda viesse mais alguém, havia toda a espécie de possibilidades que existissem pessoas a dirigirem-se para ali partindo de vários pontos, talvez essas pessoas estivessem apenas um pouco atrasadas, quem é que nunca se atrasou? Mas não lhe disse nada. Fiquei a vê-la. Pousou o dinheiro que lhe havia dado minutos antes sobre o tampo amolecido da mesa: a mesma nota e as mesmas moedas. Houve algum pedaço de derrota nos seus gestos. Devolvi-lhe o quadrado de papel carimbado. Fino. Leve no interior dos meus dedos.Talvez a não existir."

José Luís Peixoto

in JL, Ano XXVI
nº941, p.41

quarta-feira, novembro 01, 2006

Lusitana

Rui J. Santos

Montada na garupa do cavalo
Selvagem ao vento pela planície
Montanhosa do passado que calo
Pálido fado meu fio amacie

O mar revolto e um sôfrego talo
De secreto sonho a manhã ondeie
Com suas róseas mãos possa plantá-lo
E meu coração de pedra incendeie

Sandra Cardoso


segunda-feira, outubro 30, 2006

Canto dos sonhos, 6

TEATRO DA BONECA














Pinto da Silva

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.

Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.

CARLOS QUEIROS

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Campo das Letras, 3ª ed., p.435

domingo, outubro 29, 2006

...

Raquel

Porque chora
Minha alma
Tão sentida,

Quando rasga
a luz
do meu olhar?

Porque chora
Minha alma
Tão escura,

Incapaz
de ver
o que vai mal?

Porque chora
Minha alma
assim cinzenta,

Pensando
em sol, em luz
em Mar?

Porque chora
minha alma
assim cinzenta,

Esperando
um dia
T'alcançar?

Um dia, sim
hei-de encontrar
a paz, a luz,
a vida, o sol
e o mar ...

Fátima Vilaça

E agora minha amiga, a letra de uma canção que poderá em parte responder a algumas das tuas inquietações ...

Depois Melhora
(Luiz Tatit)

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora e com o tempo
Vira um sentimento que nem sempre aflora
Mas que fica na memória, depois vira um sofrimento
Que corrói tudo por dentro, que penetra no organismo
Que devora, mas depois também melhora

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora e com o tempo
Torna-se um tormento que castiga, deteriora
Feito ave predatória, depois vira um instrumento
De martírio duro e lento, uma queda num abismo
Que apavora, mas depois também melhora

E vira então uma força inexplicável
Que deixa todo o mundo mais amável
Um pouco é consequência da saudade
Um pouco é que voltou a felicidade
Um pouco é que também já era hora
Um pouco é pra ninguém mais ir embora

Vira uma esperança, cresce de um jeito
Que a gente até balança, enfim ...
Às vezes dói bastante, mas melhora
Enfim, é só felicidade aqui, agora
É bom, é bom não falar muito que piora
Enfim, é só felicidade

Ney Matogrosso

in Olhos de Farol

PolyGram, 1998

sábado, outubro 28, 2006

FRAGMENTOS

Hugo


Hoje, é um dia como tantos outros de chuva...mas, hoje, insistes em permanecer em mim. Tens vindo a fazê-lo frequentemente... por breves momentos, em imagens que passam. Hoje, porém, sentas-te e pedes a tua cerveja, sentas-te e acendes o teu cigarro, sentas-te e lês o teu jornal (era o notícias, não era? - Imagino os teus comentários ao que se vai passando por cá!). E quando terminas, descansas a face delicadamente na tua mão, a direita, a do cigarro, e olhas lá para fora. E nesse gesto eternizas uma hora, uma manhã, um dia, uma vida. Pensava eu que olhavas o trânsito, que te distraías com quem passava, mas hoje sei que olhavas o céu e com teus olhos de ave partias para outros mundos.

Tens razão...não te conheci verdadeiramente...mas ninguém te conheceu. Tu não querias. Se te falávamos sorrias e encantavas-nos com palavras sábias sobre o que se passava por cá. Hoje, sei que não era sobre isso que querias conversar. Hoje sei, mas eu tinha vinte anos e aos vinte não se sabe nada...
Como podia adivinhar que quando chegavas a casa e ligavas a televisão no canal dois,( se tu visses a programação agora!), para ouvir a música clássica que passava enquanto o canal não abria...(e eu não compreendia porque havias de ligar a televisão para ouvir música), como havia de adivinhar, nesse gesto, uma máscara social...querendo parecer da terra, navegavas nos sons e saías livre pela janela aberta, misturando-te no vento e com ele viajando por sonhos só teus... A tarde inteira fumavas, a tua companhia, dizias ... e eu não compreendia a solidão , a tua. Ou não queria. Ou não podia ...eu tinha 20 anos ... Só agora sei que mesmo sem escrever era em verso que pensavas. Só agora! E a cerveja já acabou.

Sandra Cardoso

terça-feira, outubro 24, 2006

Dá que pensar, 5

Pedro Moreira


"- Amigo velho, não há que fazer. Como pudeste imaginar que a Andorinha viesse te aceitar como marido? Nunca houve caso... Mesmo se ela te amasse -e quem te afirma que ela te ame?- jamais poderia casar contigo. Desde que o mundo é mundo, às andorinhas é proibido casar com gatos. Essa proibição é mais do que uma lei e está plantada com fundas raízes no coração das andorinhas. Dizes que ela gosta de ti, que se dependesse da sua vontade ... Pode ser, acredito mesmo que sim. Mais forte que ela, porém, é a lei das andorinhas. Porque está dentro dela desde o seu mais velho avô, desde a primeira andorinha. E para romper uma lei, é preciso uma revolução ...
Completou balançando a cabeça:
- Aliás, era até bom que acontecesse uma revoluçãozinha ... Estamos necessitando."


Jorge Amado

in O Gato Malhado e a Andorinha Sinhã
uma história de amor
Dom Quixote,1ª ed. , p.98

segunda-feira, outubro 23, 2006

Diálogos soltos, 3

vmdcc

- Vê, Marília, o que encontrei.

- Há quanto tempo!

- Há muito tempo!...

- O que o tempo faz!...

- Vamos pintá-las?

- Para quê?!!

Sandra Cardoso