domingo, julho 31, 2011

Diálogos soltos, 19


- Que estás a fazer?
- A pintar as unhas.
- Para quê?

R&S

terça-feira, julho 26, 2011

Paixões


Há aqueles que nem dão conta do tempo passar e há aqueles que dão conta de passar tudo: uma folha que surge repentinamente na janela e, no mesmo instante, desaparece; um pássaro estrangeiro que pousa incauto no parapeito; o som do riso das crianças; o navio que se despede lentamente; o avião que ensaia os voos futuros; o choro da vizinha do lado; os gestos do casal que discute na praia; o assobio da empregada, ... Tobias tinha o que muitos dariam tudo para ter ... tempo. Tempo, tempo e mais tempo... 24 horas vezes 12 anos preso naquela casa... Claro que não lhe faltava nada: tinha comida, bebida, cama e roupa lavada... de que mais precisaria ele..."Quem me dera ser gato! Passar a vida a comer e a dormir!" exclamava frequentemente o seu dono. Mas, se ele soubesse! Se ele passasse dias inteiros sentado no parapeito daquela janela a imaginar como seria o vento a bater-lhe no focinho e a empurrá-lo para trás, como seria  subir a uma árvore e espreitar um ninho ou, simplesmente, como seria correr atrás de um rato! Como seria encontrar alguém e apaixonar-se e, como seria... A sua sorte é que aprendera a ler cedo e, assim, podia entreter-se e entreter o tempo e até, como chegara já a suceder, apaixonar-se verdadeiramente por uma gata, fictícia.

Sandra Cardoso
texto e foto

terça-feira, julho 05, 2011

Dá que pensar, 16

Estranhamente, Beckman parecera aceitar a situação. Erika sempre fora franca em relação aos seus sentimentos por Mikael, e dissera ao marido logo que os dois tinham recomeçado a relação sexual. Talvez fosse preciso ter alma de artista para lidar com uma situação daquelas, alguém tão embrenhado na sua criatividade, ou talvez apenas tão embrenhado na sua própria pessoa, que não se revoltasse ao saber que a mulher dormia com outro homem. Ela chegava inclusivamente a dividir as férias de modo a poder passar duas semanas com o amante  na pequena casa de Sandhamn. Mikael não tinha grande opinião a respeito de Greger, e nunca compreendera o amor de Erika por aquele marido complacente. Mas sentia-se feliz por ele admitir que ela podia amar dois homens ao mesmo tempo.

in Os homens que odeiam as mulheres, Stieg Larsson, Oceanos, junho 2010, pp.62-63

segunda-feira, maio 23, 2011

La chercheuse

R de rien


Não desiste, diziam as empregadas umas para as outras, há nove anos que anda assim, à procura do par ideal...



terça-feira, maio 17, 2011

to a.


 renato cruz

sei que há terramotos que tiram tudo às pessoas
sei que há sismos que tiram tudo às pessoas
sei que há maremotos que tiram tudo às pessoas
sei que há furacões que tiram tudo às pessoas
sei que há doenças que tiram tudo às pessoas
sei que há guerras que tiram tudo às pessoas
sei que há vendavais que tiram tudo às pessoas

mas não sabia que uma palavra
tua
tinha a força de uma catástrofe
em mim

sandra cardoso


quinta-feira, novembro 04, 2010

Diálogos soltos, 18

- Podias ser meu filho!
- Mas não sou.

L&J

segunda-feira, junho 28, 2010

josé (saramago)

Só hoje te chorei

José

Andei contigo dentro de mim

A despedir-me

e dói-me escrever isto

tanto

tu tinhas-me avisado

é verdade

mas a esperança ...
tu sabes, José...
imaginava que um dia iria ser

aconteceu o mesmo com o miguel, com a sophia, com a rosa
 e agora tu, José

também foste

… feliz?

A mim deste-me

O coração das palavras
ainda o sinto a pulsar em mim
esse não se vai, josé,


Quem me dera poder continuar a mentir-me

Mas a verdade é só uma

Só hoje te chorei

josé

 
sandra cardoso

quarta-feira, maio 19, 2010

Diálogos soltos, 17

- O céu está com uma cor espectacular, não está?
- Está?

domingo, maio 09, 2010

Como queres tu que a lua cante


Para te embalar em sonhos azuis

Se não fechas a cortina ao sol?

Dizes "são horas de dormir"

mas não insistes para que feche os olhos

e até gostas,

confessa (só para mim),

que ele leve toda a noite a brilhar

quinta-feira, maio 06, 2010

desencontros


Gostava de te encontrar num poema,
no início de um poema
ou até mesmo antes
no momento em que o poeta
recolhe as palavras
ou até mesmo antes
no momento em que as palavras desejam
que o poeta lhes desenhe uma alma
a lápis de carvão.

Gostava tanto de te encontrar num poema
de amor
para que visses com teus olhos mecânicos
a palavra a abrir-se
em flor ou  montanha
em brisa ou  tufão
em amora ou açafrão
em rosa, em beijo, em revolução ...

Gostava mesmo que te encontrasses num poema de palavras
dispostas a travar a engrenagem mecânica
com que olhas para o amor
dos livros de poemas.


sandra cardoso
poema e foto

domingo, maio 02, 2010

Dia da Mãe


Eu continuo a vê-los crescer, e eles ... o que verão?

sábado, maio 01, 2010

Não podia dizer que não estava nervosa ... não sabia se teria a voz exacta para aquelas palavras tão anteriores a si, pensadas em tempos escuros e ditas tantas vezes na procura da luz…respirou fundo e invocou todas as forças para que se unissem e fizessem a sua voz sonora… não sei se os presentes notaram ou se terá mesmo sido imaginação da fotógrafa, mas bastou a primeira palavra para que os livros começassem a voar, como gaivotas…

sandra cardoso
(foto e texto)

quinta-feira, abril 29, 2010

Curiosamente, vi o filme antes de terminar o livro ...o filme apresenta um final aberto;o livro um final fechado, cruelmente fechado. E é claro que, agora, quando olho para as nuvens, quase vejo o arco-íris...

quarta-feira, abril 28, 2010

AMIGOS,1


Pessoas que não desistem de me fazer sonhar...

domingo, abril 25, 2010

Liberdade é poder levantar-me e dizer um poema.









Mais uma noite mágica, na esdas...e um imenso orgullho nos meus alunos de teatro!







domingo, abril 18, 2010

Leituras, V



Andava sempre consigo, o pano. Dera-lho o avô, o melhor tocador de bombo que Trás-os-Montes conhecera. Tinha nove anos e nunca mais o largou. Motivo de grandes zaragatas com a mãe que cismava que o havia de lavar todas as semanas, com os lençóis, o pano acompanhou-o para todo o lado, escondido. Foi só aos vinte anos,  quando decidiu o seu caminho, que, inconscientemente, o tirou do bolso e, pela primeira vez, nele guardou o sal da música. Ontem, quando se preparava para mergulhar, uma vez mais, no pano, não conseguiu disfarçar a perplexidade de ver o ar de orgulho do seu avô a surgir, como uma melodia. 

Foto e texto
sandra cardoso
(baterista Jorge Oliveira)

quinta-feira, abril 08, 2010

Chegar ao final de um livro tem sempre um sabor agridoce...as personagens, que até então faziam parte da nossa vida, deixam repentinamente de existir e é como se morressem. E precisamos de um tempo de luto para nos despedirmos daquele livro e para partirmos para outro... Deixo aqui momentos mágicos de " a mecânica do coração"

"A mulher mete-me o pequeno relógio por baixo da pele e começa a ligar as engrenagens às artérias do coração"(p.13)
"Chega a cantar até de manhã, acariciando-me docemente as engrenagens com as pontas dos dedos. "O amor é perigoso para o teu coraçãozinho", repete ela hipnoticamente."(p.21)

"Gostaria de ser uma águia-real ou um alcatraz majestosamente calmo, mas afinal sou um canário stressado, presa dos seus sobressaltos."
"-O teu coração não passa de uma prótese, é mais fraco do que um coração norma e será sempre assim. O mecanismo de um relógio não é como os tecidos, não filtra tão bem as emoções."(p27)

"Estou apaixonado e não sei nada do amor. Então fico furioso, luto comigo próprio e por vezes até tento acelerar ou abrandar o tempo." (p.55)

"- Se tiveres medo de uma avaria, aumentas as hipóteses, justamente, de uma avaria. Vê os acrobatas, por exemplo: achas que eles pensam que vão cair quando andam na corda bamba? Não, aceitam o risco e gozam o prazer que o perigo lhes proporciona. Se passares a vida a ter cuidado para não partires nada, vais-te aborrecer muito, sabes?"
" ...a única maneira (...) que te permite seduzir a mulher dos teus sonhos é justamente usares o teu coração. Não esse em forma de relógio que te puseram à nascença. Estou a falar do verdadeiro, o que está por baixo, de carne e sangue, que vibra." (p.56)

quarta-feira, abril 07, 2010


Tal como um sonho, fantástico ...

sábado, março 13, 2010

Diálogos soltos, 16

- Estás zangada comigo?
- Não, estou zangada comigo.

sexta-feira, março 12, 2010

Sandra Cardoso


Cobarde, porque murmuras todo o dia no teu coração a palavra do amor?
Porque falas dela incessantemente,
a toda a hora, a qualquer hora
Excepto quando estás presente em carne e ossso?
Deixa-te disso, homem,
vai ter com ela, e tenta portar-te como se falasses a sério.

Anónimo
Egipto, (1567-1085 a.C.)

quinta-feira, março 04, 2010


o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus

as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória

e eu incluía-os como amigos íntimos

nesta não tem gente

ou se tem não têm cheiro

nem som porque eu não me lembro

gastei toda a memória nas pessoas antigas

e o espaço para as novas é um T1 que fica muito para além do T

onde eu estou sem visitas

fechado à medida de não deixar entrar

preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom

eu já fui bom

agora não sei

mas já fui

juro que fui

e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias

p’ra que nenhuma se perca

era pena

é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe

e quero mantê-los ligados à máquina para sempre

e a máquina sou eu

e para sempre sou eu

anda

aconchega-te no mofo do T1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair

tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair

que foi no mesmo dia em que resistiu

como se estivesse ali desde o início dos tempos

e os tivesse começado para eu os acabar

acabar

acabar

acaba comigo que me falha a lembrança

e restas-me como a folha que esteve para cair

e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono





in a verdade dói e pode estar errada
 
João Negreiros

domingo, fevereiro 21, 2010

portugal


Lembrar-me-ei de ti assim
aguarela de crepúsculo eterno
e por mais que me queiram
arrancar este abraço
as minhas raízes crescem para ti
dás-me água e terra e voz
e não quero jamais
libertar-me dos teus braços
E se algum dia me vires
a sonhar com outros mares
lembra-me que há céus sem estrelas
e canta-me uma canção ao ouvido
que me faça adormecer no teu colo


sandra cardoso
poema e foto

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

domingo, fevereiro 14, 2010




sandra cardoso

respirar só se torna aceitável
porque vives em mim
mesmo que por instantes julgues
que não me pertences
não há ninguém que me roube
a certeza de me ver
em cada sorriso teu
mesmo quando sei
que vibras ao sol de outra clave
(por simpatia, dizes tu)
não há ninguém que me roube
a certeza de que vives em mim

sandra cardoso

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Diálogos Soltos, 15

- Queres vir tomar café?
- Agora, já é muito tarde.

terça-feira, maio 19, 2009

Leituras IV

Pinto da Silva





Sempre achara a porta daquele café pesada. Mas, naquele dia, essa sensação ainda se tornara mais evidente ... talvez fosse a decisão que tomara que lhe enfraquecera os braços ou talvez fosse o destino a mostrar-lhe o desacordo com a sua decisão. Mas nada a desviaria do seu caminho. Respirou fundo e empurrou de uma só vez a porta. E nem sequer foi preciso procurar, pois os seus olhos sabiam o caminho de cor, tal foram os anos que sonhara aquele momento. Sabia exactamente quantos passo dar até à cadeira, como arrastá-la, como sentar-se e até como colocar as mãos ... Só não sabia que o olhar dele não lhe ia deixar sair nenhuma palavra, murmúrio ou som. Ficaram a olhar-se em silêncio, um silêncio gerado por desejos sonhados há anos ... Não deram conta do tempo passar, do empregado limpar o chão e das luzes se apagarem.




Vamos fechar! foi a frase que os trouxe novamente ao corpo. Levantaram-se os dois, lado a lado pela primeira vez. Ele abriu a porta. Ela saiu. Ele saiu. Ele viu-a a afastar-se. Ainda tentou chamá-la, mas sabia que não tinha as palavras certas.








domingo, maio 10, 2009

Dia da Mãe

O presente que recebo todos os dias, vê-los crescer.

quinta-feira, abril 23, 2009

Lugar

Cecy G




Não me peças que more aqui,
Por favor,
Não me peças!
Pede-me que voe contigo para um outro lugar
Onde o sol ilumine versos brancos
E a voz das estrelas me aconchegue nos teus braços
Pede-me, pede-me que vá morar lá
Nessa pedra salgada onde nos levantámos
Pede-me que volte para o meu barco
Eu eu prometo soltar uma vela de versos
Para te guiar até mim...
Não me peças que more aqui,
Por favor,
Não me peças!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Vidas Minadas

Já se sabe que uma imagem vale mil palavras ... mas não há palavras que cheguem para estas.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Fragmentos 5

Não é que não gostasse de regressar, tinha a certeza absoluta que aquele era o caminho, mas não sabia o que fazer àquela amizade condenada à nascença.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Leituras, III

Passava um dia pelo jardim da Boavista quando a imagem a surpreendeu. Sentado num banco, um homem melancólico. Pousado ao seu lado, um nariz de palhaço. Uma imagem perfeita , um momento único. Rapidamente tirou a máquina da carteira, traçou a objectiva e só não carregou porque o homem lhe perguntou:
- Quer tirar ao homem ou ao palhaço?
-Ao homem.
Então ele pôs o nariz vermelho na sua cara e sorriu para a objectiva.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Gervasio Sánchez

Gervasio Sánchez


Discurso de Gervasio Sánchez (jornalista e fotógrafo) vencedor do prémio Ortega y Gasset




Estimados miembros del jurado, señoras y señores:Es para mí un gran honor recibir el Premio Ortega y Gasset de Fotografía convocado por El País, diario donde publiqué mis fotos iniciáticas de América Latina en la década de los ochenta y mis mejores trabajos realizados en diferentes conflictos del mundo durante la década de los noventa, muy especialmente las fotografías que tomé durante el cerco de Sarajevo. ….

Quiero dar las gracias a los responsables de Heraldo de Aragón, del Magazine de La Vanguardia y la Cadena Ser por respetar siempre mi trabajo como periodista y permitir que los protagonistas de mis historias, tantas veces seres humanos extraviados en los desaguaderos de la historia, tengan un espacio donde llorar y gritar.No quiero olvidar a las organizaciones humanitarias Intermon Oxfam, Manos Unidas y Médicos Sin Fronteras, la compañía DKV SEGUROS y a mi editor Leopoldo Blume por apoyarme sin fisuras en los últimos doce años y permitir que el proyecto Vidas Minadas al que pertenece la fotografía premiada tenga vida propia y un largo recorrido que puede durar décadas.

Señoras y señores, aunque sólo tengo un hijo natural, Diego Sánchez, puedo decir que como Martín Luther King, el gran soñador afroamericano asesinado hace 40 años, también tengo otros cuatro hijos víctimas de las minas antipersonas: la mozambiqueña Sofia Elface Fumo, a la que ustedes han conocido junto a su hija Alia en la imagen premiada, que concentra todo el dolor de las víctimas, pero también la belleza de la vida y, sobre todo, la incansable lucha por la supervivencia y la dignidad de las víctimas, el camboyano Sokheurm Man, el bosnio Adis Smajic y la pequeña colombiana Mónica Paola Ojeda, que se quedó ciega tras ser víctima de una explosión a los ocho años.Sí, son mis cuatro hijos adoptivos a los que he visto al borde de la muerte, he visto llorar, gritar de dolor, crecer, enamorarse, tener hijos, llegar a la universidad. Les aseguro que no hay nada más bello en el mundo que ver a una víctima de la guerra perseguir la felicidad.

Es verdad que la guerra funde nuestras mentes y nos roba los sueños, como se dice en la película Cuentos de la luna pálida de Kenji Mizoguchi.Es verdad que las armas que circulan por los campos de batalla suelen fabricarse en países desarrollados como el nuestro, que fue un gran exportador de minas en el pasado y que hoy dedica muy poco esfuerzo a la ayuda a las víctimas de la minas y al desminado.

Es verdad que todos los gobiernos españoles desde el inicio de la transición encabezados por los presidentes Adolfo Suarez, Leopoldo Calvo Sotelo, Felipe González, José María Aznar y José Luis Rodríguez Zapatero permitieron y permiten las ventas de armas españolas a países con conflictos internos o guerras abiertas.Es verdad que en la anterior legislatura se ha duplicado la venta de armas españolas al mismo tiempo que el presidente incidía en su mensaje contra la guerra y que hoy fabriquemos cuatro tipos distintos de bombas de racimo cuyo comportamiento en el terreno es similar al de las minas antipersonas.Es verdad que me siento escandalizado cada vez que me topo con armas españolas en los olvidados campos de batalla del tercer mundo y que me avergüenzo de mis representantes políticos.

Pero como Martin Luther King me quiero negar a creer que el banco de la justicia está en quiebra, y como él, yo también tengo un sueño: que, por fin, un presidente de un gobierno español tenga las agallas suficientes para poner fin al silencioso mercadeo de armas que convierte a nuestro país, nos guste o no, en un exportador de la muerte.

Muchas gracias.


segunda-feira, janeiro 26, 2009

To my sister, Paula

sandra cardoso

a tua ausência em mim é de sempre
e não é culpa que sinto ao ocupar o teu lugar
mas somente dor de saber
tudo o que não vivemos juntas
fot. carnegie museum of art
pittsburgh, janeiro 2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Fragmentos, 3

Sandra Cardoso

Se fechasse os olhos quase conseguiria sentir o Douro, como daquela vez em que nenhum oceano impediu o rio de lhe cantar uma canção de amor ao ouvido.

Foto: Pittsburgh, Janeiro 2009

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Kate Winslet Best Actress Drama

Confesso que no início fiquei indecisa: estaria tudo programado ou era mesmo espontâneo...mas depois as dúvidas dissiparam-se, naturalmente. E tornou-se inesquecível, para mim.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Discurso Perante a Real Academia Sueca

Um discurso para toda a minha vida...
PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA
josé saramago
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Natal

Cristina Afonso

numa outra hora


um mesmo amanhecer


nostalgia desenhada a carvão


ovulação do ser.



Sandra Cardoso

sábado, dezembro 20, 2008

Encantadora

Lúcia Letra
Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo.

"Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As Avós nao têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos.Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes.As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, sobretudo se não tiver Televisão".

domingo, dezembro 14, 2008

Diálogos soltos, 14

Karina Bertoncini

- Mãe, qual é o sentido da vida?
- ...

R&S

terça-feira, dezembro 09, 2008

Postal dos Correios

Está na altura de começar a enviá-los, pelos correio ...




Postal do Correios
Rio Grande(Rui Veloso, João Gil, Jorge Palma, Vitorino, Quim)


Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores:
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo "expresso" que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p'ra merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de "candeio"?

Já não tenho mais assunto p’ra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Muda de Vida




Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


António Variações/Humanos

terça-feira, novembro 25, 2008




Na inconstância da acção
Resta-nos o olhar que não mente
E que só nós vemos.
A pergunta, mais do que simples,
Arrasta a dolorosa certeza.
Conseguiremos viver de olhares?


Sandra Cardoso

segunda-feira, novembro 17, 2008

José Saramago
16 de Novembro de 2008

Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.

domingo, novembro 16, 2008

Sonhos

Sentada à proa do destino
Obscuro, procuro a voz da estrela
Norte enquanto tu lês
Homero e decoras versos da
Odisseia e gestos de herói.
Só a pronúncia estraga o teu disfarce.


Sandra Cardoso

quarta-feira, novembro 12, 2008

quarta-feira, novembro 05, 2008

Diálogos soltos, 13

Lúcia Pedro

-Quando voltas?

- Não sei ... se volto.

terça-feira, novembro 04, 2008

Raphael



Uma voz irresistível...



quarta-feira, outubro 15, 2008

saudade, 2


pinto da silva


seguro-me 
a silêncios proferidos no
útero do olhar migratório
da ave.
amanhecer inaudível
desafiando a
eternidade do grito.


sandra cardoso

quarta-feira, outubro 08, 2008

rattus
Co
nta a lenda que dormia
 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem. 

A Princesa Adormecida, 
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém. 

Mas cada um cumpre o Destino 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

segunda-feira, outubro 06, 2008

O AMIGO QUE EU CANTO

Poema de José Ary dos Santos

sexta-feira, outubro 03, 2008

à espera do poema, 4

paulo a. lopes

talvez a história fosse outra
se a tarde não tivesse chegado ao fim

sandra cardoso

quarta-feira, outubro 01, 2008

Crepúsculo


 Sozinha, sempre. De carro. 
Janelas abertas. Música baixa para sentir todos os sons do mundo.


O momento em que o dia se despede da noite.  
Encontro e desencontro. 
Alegria.
Abraço. Beijo. 
Dor.

As luzes das casas que se começam a iluminar. As pessoas chegam a casa, calmas.
Sorriem.
Paz. Tranquilidade.
 
A noite, inocente na sua semi obscuridade, caminhando para o silêncio.

Luzes dentro das casas. Pessoas felizes, beijando-se.
Encontro. Desencontro.
Abraços. Palavras. Sorrisos. 
Amigos.


Sozinha na Terra. 
Poderia ir até ao fim do mundo levada pela magia da hora.
Reencontro consigo.

Mas o crepúsculo é mortal. E a noite gigante.

Pára o carro.
Escuridão. 

Luz em casa.
Abre a porta, nova.


sandra cardoso

quarta-feira, setembro 03, 2008

domingo, junho 01, 2008

Palavrear

josé duarte


Já pensava
que o vento parara
eis que surge
a palavra
quente e doce
memória de
dias anteriores ao de hoje

Se ao menos eu não soubesse ler!

E fujo
do que ela sussurra
fujo
para me segurar a mim

Mas o aroma a azul,
o sabor a verde
(malditos sentidos)
soltam-se da palavra
e atam-me as mãos.

Caio.

Depois
um pássaro
leve como a água
lembra-me que o sol

também nasce no Ocidente

segunda-feira, abril 14, 2008

Diálogos Soltos, 13

hélder duarte

- Fazes amigos facilmente!

- Pensas que é fácil?

S&R


quinta-feira, abril 03, 2008

DIÁLOGOS SOLTOS , 12



- Gostava de te ter conhecido antes.
- Antes, não seria eu.

domingo, março 30, 2008

Leituras, II

DANIEL CAMACHO

A mãe bem o avisara que não olhasse para trás, perdia-se muito tempo e não via o que estava à frente. Mas aquela mania de dizer adeus aos amigos, sempre que partia para uma nova cidade, crescera com ele ... e não o abandonaria nunca. Ele sabia que a distância não era inimiga da amizade verdadeira.


A chave

rattus

Hoje passei a olhar para as chaves com outros olhos. Instintivamente, peguei novamente na chave do meu blogue e abri a porta. A princípio assustei-me ... a escuridão era tanta, quase me arrependi ... mas após um telefonema para a edp fez-se luz ... Sejam bem-vindos!


quarta-feira, outubro 31, 2007

L'amour devant la mer

João Carlo



Mourir devant, courir derrière

Se taire en attendant

En attendant que faut-il faire

Gagner la guerre ou simplement

Ne plus vouloir la faire

Dans cet enfer gagner du temps


Cacher dans un désert

Derrière l'océan

Les gens qui nous sont chers

Partir pour un moment

S'éloigner prudemment

Du feu et faire

Aux îles du Levant

L'amour devant la mer

L'amou devant la mer


Danser devant dans la lumière

D'un jour éblouissant

Rire de l'enfer faire un enfant

Courir derrière un peu de vent

Avant qu'un peu de terre

Coule doucement

Sur la lumière

Patricia Kaas

quarta-feira, outubro 17, 2007

Até ao Fim

Paulo A

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Dom Quixote, 2001, p. 25