domingo, junho 01, 2008

Palavrear

josé duarte


Já pensava
que o vento parara
eis que surge
a palavra
quente e doce
memória de
dias anteriores ao de hoje

Se ao menos eu não soubesse ler!

E fujo
do que ela sussurra
fujo
para me segurar a mim

Mas o aroma a azul,
o sabor a verde
(malditos sentidos)
soltam-se da palavra
e atam-me as mãos.

Caio.

Depois
um pássaro
leve como a água
lembra-me que o sol

também nasce no Ocidente

segunda-feira, abril 14, 2008

Diálogos Soltos, 13

hélder duarte

- Fazes amigos facilmente!

- Pensas que é fácil?

S&R


quinta-feira, abril 03, 2008

DIÁLOGOS SOLTOS , 12



- Gostava de te ter conhecido antes.
- Antes, não seria eu.

domingo, março 30, 2008

Leituras, II

DANIEL CAMACHO

A mãe bem o avisara que não olhasse para trás, perdia-se muito tempo e não via o que estava à frente. Mas aquela mania de dizer adeus aos amigos, sempre que partia para uma nova cidade, crescera com ele ... e não o abandonaria nunca. Ele sabia que a distância não era inimiga da amizade verdadeira.


A chave

rattus

Hoje passei a olhar para as chaves com outros olhos. Instintivamente, peguei novamente na chave do meu blogue e abri a porta. A princípio assustei-me ... a escuridão era tanta, quase me arrependi ... mas após um telefonema para a edp fez-se luz ... Sejam bem-vindos!


quarta-feira, outubro 31, 2007

L'amour devant la mer

João Carlo



Mourir devant, courir derrière

Se taire en attendant

En attendant que faut-il faire

Gagner la guerre ou simplement

Ne plus vouloir la faire

Dans cet enfer gagner du temps


Cacher dans un désert

Derrière l'océan

Les gens qui nous sont chers

Partir pour un moment

S'éloigner prudemment

Du feu et faire

Aux îles du Levant

L'amour devant la mer

L'amou devant la mer


Danser devant dans la lumière

D'un jour éblouissant

Rire de l'enfer faire un enfant

Courir derrière un peu de vent

Avant qu'un peu de terre

Coule doucement

Sur la lumière

Patricia Kaas

quarta-feira, outubro 17, 2007

Até ao Fim

Paulo A

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Dom Quixote, 2001, p. 25

sexta-feira, setembro 28, 2007

terça-feira, setembro 18, 2007

ESTRELA, 3

Parisienne Walkways


domingo, agosto 26, 2007

Dá que pensar, 15

Sandra Cardoso


terça-feira, agosto 14, 2007

Diálogos soltos, 11

Geoffroy Demarquet

-Não sei... há tantos...os outros podem...

- Enganas-te ... há só um ... o do coração ... os outros levar-te-iam para longe de ti.

Sandra Cardoso

domingo, agosto 05, 2007

Leituras

Marta Ferreira




Ficou a pensar se seria uma pessoa corajosa … nunca tinha dito ao seu pai que o amava, nunca tinha abraçado o seu irmão, nunca se tinha sentado na mesma mesa de café daquela mulher que lia os mesmos livros que ela, nunca tinha recolhido um animal abandonado, nunca se tinha inscrito como voluntária numa missão em África e nunca tivera dúvidas sobre a sua coragem … Nunca! Até hoje.

Sandra Cardoso

terça-feira, julho 17, 2007

Fragmentos, 2

Miguel P. Dias


Era um tempo em que não havia tempo. Eu vivia tardes soalheiras num jardim recortado de sonhos, onde criava a minha história com múltiplas personagens imaginárias… sozinha, perdida entre flores, pássaros, formigas…havia também o baloiço, na roda que puxara a água e que ainda rodava, esquecida do tempo…

O meu tempo era o tempo que a formiga levava a percorrer a minha mão e a subir os dedos que lhe apareciam pela frente. Sem nunca contornar os obstáculos…enfrentava-os…Terá começado aí a minha mania de filosofar (ou será que já nascemos assim?)… A formiga, frágil ser em meu poder, não desistia.

Tenho a certeza hoje da importância dessa aprendizagem na minha vida, da importância de ter vivido essas tardes sozinha, mas não solitária, da importância da natureza, do silêncio…e do tempo para pensar.

Mas que fazemos nós, agora, aos nossos filhos? Roubamos-lhes o tempo…queremos que estejam ocupados, inscritos em actividades em todos os dias das férias e até nos esquecemos de que precisam de tempo…para crescer.


Sandra Cardoso





segunda-feira, julho 09, 2007

Devo dizer que estou em dívida para com o João Oliveira do blog João Oliveira Poemas http://www.joooliveira.blogspot.com/

que me nomeou no dia 13 de Junho com um






logo eu que estava aqui tão quietinha no meu cantinho, sem me mexer muito para ninguém dar por mim … mas o João insistiu …Demorei bastante…falta de tempo ... mas aqui vão as nomeações

o blog do Alberto http://www.papeldefantasia.blogspot.com/
o blog da Licínia, http://www.sitiopoema.blogspot.com/
o blog da Dulce, http://www.paralemdemim.blogspot.com/
o blog do Manuel, http://www.de-proposito.blogspot.com/
o blog da Whisper e da Aspirante, http://www.cinefilos-anonimos.blogspot.com/

Como vês, João, não quebrei a corrente, mas suspeito que as minhas nomeações não venham a contribuir para novos encadeamentos, pois já quase todos estes blogs foram nomeados.

Beijinho e obrigada, João, pela tua presença!

sábado, junho 16, 2007

À espera do poema, 3

Luís Pereira

Como uma rosa

em botão

arrancada ao amanhecer da Primavera

Sandra Cardoso

segunda-feira, junho 04, 2007

Diálogos soltos, 10

Miguel Pereira

- Não tens dúvidas?

- Não.

- E a que horas queres que o tempo pare?


quarta-feira, maio 23, 2007

Dá que pensar,14

Sandra Cardoso

terça-feira, maio 15, 2007

Juro que não

Paulo César


Não fui eu que te pedi
este abraço
Não fui eu quem te procurou
Foste tu, Vida, que estendeste teus braços
Foste tu que me ensinaste todos os passos de dança
do que não sou.
Não fui eu que te pedi,
Não fui, juro que não,
que eu só quero olhar o mar
sentada num cadeirão
e embalar o sol na tua canção.
Não fui eu que te pedi,
Não fui eu, juro que não,
nem orquestras, nem pianos,
nem guitarras, nem sopranos...
Já devias saber, Vida,
que me basta
um pardal a chilrear
junto do meu coração.
Sandra Cardoso

segunda-feira, maio 07, 2007

Balada das Quatro Meninas


Foto A.M. Pinto da Silva




As quatro meninas têm quinze anos.

Têm nas gavetas cadernos de escola

fechados à chave ...Têm nas gavetas

(que ninguém o sonhe!) as tranças cortadas

há dois ou três dias ...Têm quinze anos.


As quatro meninas têm namorados.

(Como gostam delas!...) As quatro meninas

sabem que são belas, que o juram aquelas

cartas escondidas entre os seios tímidos.


As quatro meninas sabem-se miradas.

Sabem da inveja que têm na praia

os outros rapazes dos quatro rapazes

que à tarde lhes dizem ... as coisas que dizem.

E as quatro meninas sentem-se felizes.


Chove ...chove ... chove... Esbeltas, à janela,

por detrás dos vidros, cismam as meninas.

-Que palavras meigas estarão escrevendo,

por detrás dos vidros, escutando a chuva,

os quatro rapazes, os quatro mais belos,

martes, mais ágeis, que existem no mundo?


As quatro meninas sorriem: bem sabem.

Sebastião da Gama
Campo Aberto, Ed. Ática

quarta-feira, maio 02, 2007

Poemas da minha vida, 1

Bart

A vida que não é vida

Caminhava.
E na esquina esburacada de uma casa,
duma casa já não casa,
vi os restos esqueléticos de um candeeiro antigo
que ali fora enforcado
e ali estava.
Mais à frente,
a um portal escancarado, sem portal,
havia lixo, um cheiro a gatos vivos, ratos mortos
e um murmúrio apagado, o fim real ...
mas, ali havia gente!

Depois, um cão, sujo, magro como os seus ossos.
E, depois, uma criança que me olhava.
Que me olhava!
Uma criança!
Uma criança que não era criança
mas que tinha pezitos nus trilhados na pedra
côncava daquele chão que não tinha chão;
Uma criança que não era criança mas que tinha olhos,
olhos tristes,
tão tristes que entristeceram os meus;
Uma criança que não era criança, mas que tinha voz,
uma voz quase sem voz, mas que eu ouvia!
E ali estava o ser, ali vivia;
Era uma vida que sofria, comédia que arrepia ...

Como é possível, meu Deus?!

Corri louco para trás,
gritei quanto fui capaz
mas o mundo não me ouvia.

Ameacei satanás;
Mostrei a Deus quem sofria
pedindo amor, pão e paz,
mas também ninguém me ouvia!

E tudo há tanto tempo se passou
e a sorte da má sorte, não mudou!

sérgio O. sá

Do Banco do Jardim, Poemas
Ed. do Autor, Maio 1977, pp. 58-59


quarta-feira, abril 25, 2007

Crianças

Artur Franco


Nós, as crianças,

Queremos brincar

Em liberdade

Em qualquer lugar.



Queremos brincar aqui,

Sem haver prisões, sem armas, sem tiros e sem ladrões.



Não queremos mais a fome.

Não queremos mais a guerra.

Não queremos mais o ódio.

Não queremos mais mentira.

Queremos paz em toda a Terra.



Queremos brincar ao sol,

Como uma flor.

Nós, as crianças,

Queremos amor!


Nota: Este foi o primeiro poema que eu disse em público. Deveria ter cerca de seis anos. Infelizmente, não sei quem é o autor. Mas o poema...nunca mais o esqueci. A mensagem continua actual.

terça-feira, abril 24, 2007

Dá que pensar, 13

Sandra Cardoso

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial do Livro

A.M.Pinto da Silva

Um livro é um amigo eterno.

Sandra Cardoso

Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais.

Tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade

Ofício de Paciência

quinta-feira, abril 19, 2007

Diálogos soltos, 9

Erik Reis


- Carro novo ... Parabéns!
- Bem, não é o carro dos meus sonhos ...
- Que sorte! Assim podes continuar a sonhar!

quarta-feira, abril 18, 2007

LES SÉPARÉS

N'écris pas.
Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas.
N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas.
Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !



Marceline Desbordes-Valmore
(1786-1859)

terça-feira, abril 17, 2007

Diálogos soltos, 8

Pedro Soares
- Para sempre?
- Para ... sempre.
- Achas demais?
- Sonhar nunca é demais !

sexta-feira, abril 13, 2007

TESTAMENTO

Luís Rosa


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Ana Luísa Amaral

Minha Senhora de Quê
Quetzal Editores
Lisboa, 1999

quarta-feira, março 28, 2007

À espera do poema, 2

Joana Homem da Costa

... ser das palavras a voz

grito d'alma em terra d'amor

ou grito d'amor em terra d'alma ...

Sandra Cardoso

terça-feira, março 20, 2007

À espera do poema,1

A.M. Pinto da Silva

... ouvi gargalhadas de sonho
e um sorriso lento espreguiçou-se em mim...

sábado, março 17, 2007

PELE

Pipoca

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira


segunda-feira, março 12, 2007

Diálogos Soltos, 7

Marta Ferreira

-Em que é que estás a pensar?

-Em nada.


quinta-feira, março 08, 2007

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O PREÇO DE UM SONO TRANQUILO OU O HOMEM QUE MORREU DE AMOR



Bart

Muitas vezes, misturo-me na multidão, para não pensar. Ouço as vozes, observo todas as pessoas que passam por mim, olho as montras, os preços, espero pelo sinal verde, atravesso estradas, ouço o barulho dos automóveis e, enquanto me distraio com o ruído, não me ouço, esqueço-me, quase me anulo na multidão. Porque a minha voz, quando me deito no silêncio da noite, a minha voz quase não acreditando que é minha, a minha voz a sugerir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a pedir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a impor aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, não me dá tréguas. E só consigo adormecer quando ouço que era para bem deles, que a vida deles era um inferno, acordar às quatro horas da manhã e ver que a minha avó tinha colocado todas as roupas que possuía no chão e tinha feito uma trouxa e queria encontrar a porta para se ir embora e que eles não conseguiam dormir e que tinha arrancado a fralda e eram mais dois lençóis e um edredon, mais dois porque já tinha sido assim a semana inteira e que, além disso, tinham de ouvir os insultos da minha avó e os gritos e as agressões e que, no dia seguinte, a minha mãe tinha de trabalhar e que não podiam deixar de olhar para ela um segundo, porque ela podia fugir como já fizera tantas vezes, podia saltar novamente o muro da nossa casa e magoar-se, porque era melhor para ela, para eles, para mim ... Só assim é que eu consigo adormecer, por algumas horas, sabendo que antecipei a morte da minha avó, para salvar a saúde mental dos meus pais, porque, por muito bons que sejam os lares, ninguém trata melhor a nossa mãe, a nossa avó, do que nós...

Felizmente, os meus pais tinham algum dinheiro para pagar a prestação de um lar....estiveram à espera de vaga nos outros, nos do Estado, mas não havia...não havia... nos do Estado não há vagas para os idosos, o que importa os idosos? E os meus pais conseguiram pagar para terem um pouco de paz, (se é paz ir visitar a nossa mãe a um lar...).

Agora, uma outra imagem me atormenta, o desespero daquele homem obrigado a cometer um crime no final da sua vida, uma vida honrada, porque só um homem da altos valores poderia ter tamanho acto de amor, o desespero de não ter tido resposta de uma sociedade que aponta a justiça social como um dos seus valores fundamentais, o desespero de quem grita e não é ouvido. E atormenta-me saber que há tantos homens e mulheres e crianças que estão a gritar neste momento e eu estou aqui, com a cabeça na almofada, sem conseguir fechar os olhos, porque ouço o desespero da solidão daquele homem, ouço o seu grito mudo e sinto os tiros que entram em mim como sirenes de revolta ...

Assusta-me saber que não adianta pedir, reclamar, participar em manifestações, em greves...assusta-me esta impotência a que o cidadão comum chegou ...assusta-me que a única solução daquele homem tenha sido aquela, porque, acreditem, visto daqui e agora, continuo a achar que nós não tínhamos solução para aquele homem. E por isso não durmo. Não consigo, porque penso no estado das coisas e no Estado. Será que à noite, apagadas as luzes do dia, quando pousa a cabeça na almofada, o Estado consegue fechar os olhos e dormir um sono tranquilo?

Sandra Cardoso

p.s. esta reflexão vem no seguimento da notícia de um idoso que matou a mulher, doente de Alzheimer, e que se suicidou em seguida.


terça-feira, março 06, 2007

Pedro Rodrigues

Foi neste dia

Que desceste do céu e sopraste um brilho de luz no meu coração!


segunda-feira, março 05, 2007

RENTE AO CHÃO





A.M.Pinto da Silva

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de março rastejando ainda.




Eugénio de Andrade

in O Outro Nome da Terra

Ed. Limiar, Out.1988, p. 29

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

...

Sérgio Redondo

Quanto vale uma hora de vida?



segunda-feira, fevereiro 26, 2007

...

Jorge Bica

há manhãs de chuva
que molham a alma
apenas pelo lado de fora

há tardes de sol
que queimam o corpo
realidade adentro

há noites de luar
que riscam a vermelho
o peito desiludido dorido enxuto
de tanto esperar pelo dia seguinte

tu tu banhas as pétalas
do meu sonho revolto envolto
em círculos ténues
de tempestades perenes
de verdadeiro estio
e estás sempre pronta a irrigar
de pranto de alegria de esperança
o meu plantio isto é
as minhas terras de cultivo

Manuel Fontão


segunda-feira, fevereiro 19, 2007

CHUVA

A.M.Pinto da Silva

Chove.

A grua indica o caminho.
A gaivota pousa na grua.
Olha o mar.

Chove.
Em que pensará a gaivota pousada na grua
Alta
Olha o mar
Olha a minha sala
Olha-me sentada no sofá ou deitada
O sofá
A gaivota à chuva olha o mar
Eu sentada ou deitada ouço o mar
E não chove
No sofá
Não
Chove
Na grua alta que mostra o mar à gaivota
E a mim
O que mostra o sofá?
A gaivota parte
E a mim
O que mostra o sofá?
Fica a grua
Fica o sofá

Fico.

O que mostra o sofá?

Chove.

Sandra Cardoso

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cadastrado

Evandro Monteiro


Uma vez, aos sete anos,

partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja

Dez anos depois, conduzindo um carro,

não parou num cruzamento de rua

onde havia um sinal de stop.

Dois anos depois, teve uma briga

num bar, e partiu a cabeça a um amigo

com uma garrafa de cerveja.

Quando se recusou a combater no Viet-Nam,

o seu cadastro provara como desde a infância,

sempre manifestara sentimentos

nitidamente de traidor à pátria.

12 de Agosto de 1969(?)

Jorge de Sena


in Poesia de Jorge de Sena

Ed. Comunicação, 1985, p.179





quarta-feira, fevereiro 07, 2007

...

K.O.T.A.



ENCONTRO DE ESCRITORES DE EXPRESSÃO IBÉRICA



correntesD'escritas




sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dá que pensar, 12

Ricardo Jorge


"Saíram juntos da exposição e foram continuar a conversa no terraço de um bar, sob as estrelas, defronte às águas negras da baía. Nessa noite, contou-me Félix, só ele falou. Ângela Lúcia possui um talento raro: é capaz de manter acesa uma conversa sem quase participar nela. Depois o meu amigo regressou a casa e disse-me:
«Conheci uma mulher extraordinária. Ah, meu caro, faltam-me as palavras certas para a definir - tudo nela é luz!»
Achei um exagero. Onde há luz, há sombras."


José Eduardo Agualusa

in O Vendedor de Passados
Publ. D. Quixote, 2006, p.151

terça-feira, janeiro 23, 2007

Diálogos soltos, 6

Zé Pedro

- Até amanhã!
- Adeus. Adeus. Adeus.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Dá que pensar, 11


K.O.T.A.

"Em Portugal, 18 mil mulheres abortaram ilegalmente em 2005. 350 mil portuguesas fizeram-no pelo menos uma vez na vida. Estes números revelam a amplitude e a brutalidade de uma realidade escondida.

Estes dados são retirados de um inquérito sistemático sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG). O estudo destaca a solidão das mulheres confrontadas com uma gravidez não desejada, por vezes pouco informadas sobre práticas contraceptivas, e que abortam sem apoio social ou médico. Segundo o estudo, 64,1% das mulheres portuguesas que reconheceram terem abortado em 2005 não tiveram apoio médico e 34,9% fizeram-no num domicílio particular. 72,5% destas mulheres foram informadas, por amigas, sobre a prática do aborto. 46,1 % não usavam qualquer método contraceptivo. Mais de metade têm uma idade entre os 17 e os 24 anos. 25% tomaram a decisão sozinhas e 40,8% consideraram ter sido uma decisão "extremamente difícil".

Perguntadas sobre o método utilizado 35% referem a raspagem, 25% a tomada de comprimidos e 23% a aspiração. Além dissso, 16% afirmaram desconhecer o método utilizado com elas.

Segundo Duarte Vilar, director da AFP, os números estarão abaixo da realidade. " Num país onde a IVG é ainda ilegal, é muito provável que um número importante de mulheres não se atreva a reconhecer a sua prática", sublinha.
Em Portugal, um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, a pedido da mulher, nas primeiras dez semanas de gravidez, vai realizar-se no próximo dia 11 de Fevereiro. "


JPS/Fonte:AFP
in "A Página da Educação"
nº163, Jan. 2007, p.4

domingo, janeiro 14, 2007













Alba Luna



Sedentas de olhares

minhas raízes rasgam

solos duros

riscam palavras de luz

no granito escuro.


Sedentas de olhares

minhas raízes lançam-se

no oceano obscuro

dançam palavras de sol

na água gélida.


Sedentas de olhares

minhas raízes saltam

horizontes nocturnos

gritam palavras de vento

no deserto futuro.


Sedentos de raízes

meus olhares fogem

do país de vidro.



Sandra Cardoso

domingo, janeiro 07, 2007

ACEITAÇÃO

Ricardo Zerrenner

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
E sentir passar as estrelas
Do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
E assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
Que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
O sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
Nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
Não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar
.

Cecília Meireles

in Melhores Poemas
Maria Fernanda (sel.)
Global Editora, 2006, p.17

sexta-feira, janeiro 05, 2007

DUELO ARTÍSTICO

Artur Franco


Que importa se morrem?
Que importa se crianças,
de barriga grande, deitam espumas,
de tantas cores, pelas bocas?
Só as cores importam.
Qual será a cor das espumas angolanas?
Será castanho frio no zinco castanho quente?

Que importa?
Só o amor importa.
O nosso amor,
o nosso amor pela nossa vizinha.
Nasce-me água na boca,
(água, não espuma),
porque a nossa vizinha é óptima.
A nossa vizinha é soberba.
Certamente existe um deus, senão,
como poderia existir a nossa vizinha?


José Luís Peixoto
in JL 945, Jan. 2007 p.8

Nota: José Luís Peixoto publicou este poema em 1992, aos 17 anos, no JL nº510, na secção "A Prova dos Novos".

domingo, dezembro 31, 2006

Geisa Cruvinel

Querido amigo:

Tenho pensado muito em ti, nestes últimos dias.

Todos falam na mudança de ano. E é mesmo por isso que eu penso em ti, porque vamos ter algo de novo, finalmente, e já não precisas de ir para o colégio. De certeza que, com este ano novo, as casas de banho da nossa escola já vão ter papel higiénico, e já vamos poder lavar as mãos com sabonete e secá-las sem ser na nossa roupa! E também devem substituir o coberto, onde nos abrigamos durante os dias em que está a chover, por uma sala grande e quente onde nos possamos divertir. E de certeza que vão tratar do chão do recreio, que é em terra, e em dias de chuva é de lama!. Lembras-te quando o Gonçalo te empurrou e caíste direitinho na poça?! Foi uma risota, mas tu é que não achaste piada nenhuma!! Uma semana em casa doente por teres estado o dia todo com a roupa molhada...

Um novo ano...Eu sei que tudo isto já existe há mais de dez, disse-me a minha prima que também andou na nossa escola, eu sei, mas agora vai ocorrer uma mudança e não acredito que seja só mudar o 6 para o 7. Se fosse só isso, para quê tanta azáfama?!! Algo mais tem de acontecer, não achas?

Um beijinho

Ana

P.S. Se não nos virmos antes, desejo-te um feliz, mesmo muito feliz 2007 !


segunda-feira, dezembro 25, 2006

Pedro Fernandes




Nada te obriga, nesta tarde fria

Aos passos duros, sujos e frenéticos

Tosca peregrinação alucinada

Ao templo atulhado de vazios.

Liberta a alma, olha para o nada!...



Margarida Correia
2006

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Dá que pensar, 10

Erik Reis

" Os huincas são pessoas, morrem como os mapuche, mas comportam-se como demónios. No Norte, queimaram vivas tribos inteiras. Querem que aceitemos o seu deus pregado numa cruz, deus da morte, que nos submetamos ao seu rei, que não vive aqui e que não conhecemos, querem ocupar a nossa terra e fazer de nós seus escravos. Porquê, pergunto-vos eu? Por nada, irmãos. Eles não apreciam a liberdade. Não entendem o orgulho, são obedientes, põem-se de joelhos no chão e baixam a cabeça. Não sabem nada de justiça ou retribuição. Os huincas são loucos mas são loucos malévolos. E eu digo-vos irmãos, que nunca seremos seus prisioneiros, e morreremos lutando."

Isabel Allende

in Inés da Minha Alma
Difel, 2006, p.295

Nota: Os Huincas são os espanhóis que conquistaram e fundaram o Chile. Os Mapuche são os índios que habitavam nessa região.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

MAR MEU

Rafael Almeida


Estás ali: quando a terra acaba
Começas tu – mar meu
Como fico extasiado só de te ver assim calmo, ondulado na minha paisagem
Eu sou terra, tu és mar

Aventurei-me a navegar nas tuas águas serenas
A embarcação era frágil mas carregava cheia, vontade
E fui

Teu coral reflectia o encanto interior
E será sempre bonito a qualquer olhar lúcido
Nas ondas da paixão me entreguei
Balancei atordoado
Sinto que já não sou terra no barco mas só água – tua
Fiz-me líquido para me moldar às tuas formas
Que bem que fiquei
Coexisto alagado, sem querer regressar
Contigo flutuo sem sequer saber nadar
Deste-me a mão
Levaste-me na tua corrente a passear às profundezas
Perdemo-nos mutuamente
Depois pingamos fragmentos de felicidade
E continuamos assim molhados de saudade

Na insossa realidade esvaída de arte
Dedicaste o poema sentido
Levei a música ao teu festival
E tudo isto ficou pintado com tuas cores no vitral...

O farol adivinha tempestades
Pois que adivinhe, eu prefiro-te a ti
Apenas importa que não percas o teu sorriso lindo

Mar meu: não consigo ignorar-te
Tenho sede da tua água que nunca me basta
Ao menos, espero um dia consintas afogar-me em ti
E fazer parte do teu líquido estrutural

Sei que na tua imensidão oceânica
Abraças outras praias, outras terras
E como tenho inveja, ciúme dessas felizes areias acariciadas
Queria ser um rio – o único - que te enchesse de recordações
Mas existem outros (mais importantes) que também aspiram a essa felicidade
Não posso competir e existo só para verificar que cuidas de ti

No limiar das forças procuro o sal da tua alma
Que me tempera a existência
E não receio engrossar uma fila
Num qualquer consultório de hipertensos

Sim, fiquei viciado em ti
Na substância que te corre nas veias e alimenta o nosso mundo e outros
Sou dependente

Mas um maremoto devolveu-me à condição esquecida
Agora, quero apenas esperar na tua praia
E sonhar que voltes numa próxima maré...


Celso Silva
2004

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Canto dos Sonhos, 9

CORPO DE AROMA

X. Maya

Se foste corola ou barco,
mas quando?
minha irmã,
minha leve amante, minha árvore,
que o mundo levantava
na inocência absoluta
do instante.
Alta estavas no amplo e recolhida
como um lâmpada,
alta estavas na varanda branca.
Se acaso ainda podes ser aroma
dos meus olhos,
corpo no corpo,
retiro e substância, linha alta
da delícia,
nada te pedirei na minha ânsia
de puro espaço,
de azul imediato,
de luz para o olvido e o deserto.

António Ramos Rosa

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p.503

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Canto dos Sonhos, 8

A ÁRVORE DO SILÊNCIO





Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raiz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)


Vitorino Nemésio

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa
Eugénio de Andrade (org.)
Campo das Letras, 2000, p. 420

terça-feira, dezembro 05, 2006

Inche Lautaro!

Bart


"Lautaro foge de Santiago na noite mais escura de Verão, sem ser visto pelas sentinelas e sem alertar os cães, que o conhecem. Corre pela ribeira do Mapocho, escondido pela vegetação de canas e fetos. Não usa a ponte de cordas dos huincas, atira-se às águas negras e nada, com um grito de felicidade sufocado no peito. A água fria lava-o por dentro e por fora, deixando-o limpo do odor dos huincas. Com grandes braçadas, cruza o rio e emerge na outra margem recém-nascido. Inche Lautaro! Sou Lautaro!, grita."

Isabel Allende
in Inés da Minha Alma
Difel, Set.2006, p.293