terça-feira, maio 19, 2009

Leituras IV

Pinto da Silva





Sempre achara a porta daquele café pesada. Mas, naquele dia, essa sensação ainda se tornara mais evidente ... talvez fosse a decisão que tomara que lhe enfraquecera os braços ou talvez fosse o destino a mostrar-lhe o desacordo com a sua decisão. Mas nada a desviaria do seu caminho. Respirou fundo e empurrou de uma só vez a porta. E nem sequer foi preciso procurar, pois os seus olhos sabiam o caminho de cor, tal foram os anos que sonhara aquele momento. Sabia exactamente quantos passo dar até à cadeira, como arrastá-la, como sentar-se e até como colocar as mãos ... Só não sabia que o olhar dele não lhe ia deixar sair nenhuma palavra, murmúrio ou som. Ficaram a olhar-se em silêncio, um silêncio gerado por desejos sonhados há anos ... Não deram conta do tempo passar, do empregado limpar o chão e das luzes se apagarem.




Vamos fechar! foi a frase que os trouxe novamente ao corpo. Levantaram-se os dois, lado a lado pela primeira vez. Ele abriu a porta. Ela saiu. Ele saiu. Ele viu-a a afastar-se. Ainda tentou chamá-la, mas sabia que não tinha as palavras certas.








domingo, maio 10, 2009

Dia da Mãe

O presente que recebo todos os dias, vê-los crescer.

quinta-feira, abril 23, 2009

Lugar

Cecy G




Não me peças que more aqui,
Por favor,
Não me peças!
Pede-me que voe contigo para um outro lugar
Onde o sol ilumine versos brancos
E a voz das estrelas me aconchegue nos teus braços
Pede-me, pede-me que vá morar lá
Nessa pedra salgada onde nos levantámos
Pede-me que volte para o meu barco
Eu eu prometo soltar uma vela de versos
Para te guiar até mim...
Não me peças que more aqui,
Por favor,
Não me peças!

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Vidas Minadas

Já se sabe que uma imagem vale mil palavras ... mas não há palavras que cheguem para estas.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Fragmentos 5

Não é que não gostasse de regressar, tinha a certeza absoluta que aquele era o caminho, mas não sabia o que fazer àquela amizade condenada à nascença.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Leituras, III

Passava um dia pelo jardim da Boavista quando a imagem a surpreendeu. Sentado num banco, um homem melancólico. Pousado ao seu lado, um nariz de palhaço. Uma imagem perfeita , um momento único. Rapidamente tirou a máquina da carteira, traçou a objectiva e só não carregou porque o homem lhe perguntou:
- Quer tirar ao homem ou ao palhaço?
-Ao homem.
Então ele pôs o nariz vermelho na sua cara e sorriu para a objectiva.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Gervasio Sánchez

Gervasio Sánchez


Discurso de Gervasio Sánchez (jornalista e fotógrafo) vencedor do prémio Ortega y Gasset




Estimados miembros del jurado, señoras y señores:Es para mí un gran honor recibir el Premio Ortega y Gasset de Fotografía convocado por El País, diario donde publiqué mis fotos iniciáticas de América Latina en la década de los ochenta y mis mejores trabajos realizados en diferentes conflictos del mundo durante la década de los noventa, muy especialmente las fotografías que tomé durante el cerco de Sarajevo. ….

Quiero dar las gracias a los responsables de Heraldo de Aragón, del Magazine de La Vanguardia y la Cadena Ser por respetar siempre mi trabajo como periodista y permitir que los protagonistas de mis historias, tantas veces seres humanos extraviados en los desaguaderos de la historia, tengan un espacio donde llorar y gritar.No quiero olvidar a las organizaciones humanitarias Intermon Oxfam, Manos Unidas y Médicos Sin Fronteras, la compañía DKV SEGUROS y a mi editor Leopoldo Blume por apoyarme sin fisuras en los últimos doce años y permitir que el proyecto Vidas Minadas al que pertenece la fotografía premiada tenga vida propia y un largo recorrido que puede durar décadas.

Señoras y señores, aunque sólo tengo un hijo natural, Diego Sánchez, puedo decir que como Martín Luther King, el gran soñador afroamericano asesinado hace 40 años, también tengo otros cuatro hijos víctimas de las minas antipersonas: la mozambiqueña Sofia Elface Fumo, a la que ustedes han conocido junto a su hija Alia en la imagen premiada, que concentra todo el dolor de las víctimas, pero también la belleza de la vida y, sobre todo, la incansable lucha por la supervivencia y la dignidad de las víctimas, el camboyano Sokheurm Man, el bosnio Adis Smajic y la pequeña colombiana Mónica Paola Ojeda, que se quedó ciega tras ser víctima de una explosión a los ocho años.Sí, son mis cuatro hijos adoptivos a los que he visto al borde de la muerte, he visto llorar, gritar de dolor, crecer, enamorarse, tener hijos, llegar a la universidad. Les aseguro que no hay nada más bello en el mundo que ver a una víctima de la guerra perseguir la felicidad.

Es verdad que la guerra funde nuestras mentes y nos roba los sueños, como se dice en la película Cuentos de la luna pálida de Kenji Mizoguchi.Es verdad que las armas que circulan por los campos de batalla suelen fabricarse en países desarrollados como el nuestro, que fue un gran exportador de minas en el pasado y que hoy dedica muy poco esfuerzo a la ayuda a las víctimas de la minas y al desminado.

Es verdad que todos los gobiernos españoles desde el inicio de la transición encabezados por los presidentes Adolfo Suarez, Leopoldo Calvo Sotelo, Felipe González, José María Aznar y José Luis Rodríguez Zapatero permitieron y permiten las ventas de armas españolas a países con conflictos internos o guerras abiertas.Es verdad que en la anterior legislatura se ha duplicado la venta de armas españolas al mismo tiempo que el presidente incidía en su mensaje contra la guerra y que hoy fabriquemos cuatro tipos distintos de bombas de racimo cuyo comportamiento en el terreno es similar al de las minas antipersonas.Es verdad que me siento escandalizado cada vez que me topo con armas españolas en los olvidados campos de batalla del tercer mundo y que me avergüenzo de mis representantes políticos.

Pero como Martin Luther King me quiero negar a creer que el banco de la justicia está en quiebra, y como él, yo también tengo un sueño: que, por fin, un presidente de un gobierno español tenga las agallas suficientes para poner fin al silencioso mercadeo de armas que convierte a nuestro país, nos guste o no, en un exportador de la muerte.

Muchas gracias.


segunda-feira, janeiro 26, 2009

To my sister, Paula

sandra cardoso

a tua ausência em mim é de sempre
e não é culpa que sinto ao ocupar o teu lugar
mas somente dor de saber
tudo o que não vivemos juntas
fot. carnegie museum of art
pittsburgh, janeiro 2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Fragmentos, 3

Sandra Cardoso

Se fechasse os olhos quase conseguiria sentir o Douro, como daquela vez em que nenhum oceano impediu o rio de lhe cantar uma canção de amor ao ouvido.

Foto: Pittsburgh, Janeiro 2009

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Kate Winslet Best Actress Drama

Confesso que no início fiquei indecisa: estaria tudo programado ou era mesmo espontâneo...mas depois as dúvidas dissiparam-se, naturalmente. E tornou-se inesquecível, para mim.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Discurso Perante a Real Academia Sueca

Um discurso para toda a minha vida...
PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA
josé saramago
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Natal

Cristina Afonso

numa outra hora


um mesmo amanhecer


nostalgia desenhada a carvão


ovulação do ser.



Sandra Cardoso

sábado, dezembro 20, 2008

Encantadora

Lúcia Letra
Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo.

"Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As Avós nao têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos.Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes.As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, sobretudo se não tiver Televisão".

domingo, dezembro 14, 2008

Diálogos soltos, 14

Karina Bertoncini

- Mãe, qual é o sentido da vida?
- ...

R&S

terça-feira, dezembro 09, 2008

Postal dos Correios

Está na altura de começar a enviá-los, pelos correio ...




Postal do Correios
Rio Grande(Rui Veloso, João Gil, Jorge Palma, Vitorino, Quim)


Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores:
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo "expresso" que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p'ra merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de "candeio"?

Já não tenho mais assunto p’ra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Muda de Vida




Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


António Variações/Humanos

terça-feira, novembro 25, 2008




Na inconstância da acção
Resta-nos o olhar que não mente
E que só nós vemos.
A pergunta, mais do que simples,
Arrasta a dolorosa certeza.
Conseguiremos viver de olhares?


Sandra Cardoso

segunda-feira, novembro 17, 2008

José Saramago
16 de Novembro de 2008

Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.

domingo, novembro 16, 2008

Sonhos

Sentada à proa do destino
Obscuro, procuro a voz da estrela
Norte enquanto tu lês
Homero e decoras versos da
Odisseia e gestos de herói.
Só a pronúncia estraga o teu disfarce.


Sandra Cardoso

quarta-feira, novembro 12, 2008

quarta-feira, novembro 05, 2008

Diálogos soltos, 13

Lúcia Pedro

-Quando voltas?

- Não sei ... se volto.

terça-feira, novembro 04, 2008

Raphael



Uma voz irresistível...



quarta-feira, outubro 15, 2008

saudade, 2


pinto da silva


seguro-me 
a silêncios proferidos no
útero do olhar migratório
da ave.
amanhecer inaudível
desafiando a
eternidade do grito.


sandra cardoso

quarta-feira, outubro 08, 2008

rattus
Co
nta a lenda que dormia
 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem. 

A Princesa Adormecida, 
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém. 

Mas cada um cumpre o Destino 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

segunda-feira, outubro 06, 2008

O AMIGO QUE EU CANTO

Poema de José Ary dos Santos

sexta-feira, outubro 03, 2008

à espera do poema, 4

paulo a. lopes

talvez a história fosse outra
se a tarde não tivesse chegado ao fim

sandra cardoso

quarta-feira, outubro 01, 2008

Crepúsculo


 Sozinha, sempre. De carro. 
Janelas abertas. Música baixa para sentir todos os sons do mundo.


O momento em que o dia se despede da noite.  
Encontro e desencontro. 
Alegria.
Abraço. Beijo. 
Dor.

As luzes das casas que se começam a iluminar. As pessoas chegam a casa, calmas.
Sorriem.
Paz. Tranquilidade.
 
A noite, inocente na sua semi obscuridade, caminhando para o silêncio.

Luzes dentro das casas. Pessoas felizes, beijando-se.
Encontro. Desencontro.
Abraços. Palavras. Sorrisos. 
Amigos.


Sozinha na Terra. 
Poderia ir até ao fim do mundo levada pela magia da hora.
Reencontro consigo.

Mas o crepúsculo é mortal. E a noite gigante.

Pára o carro.
Escuridão. 

Luz em casa.
Abre a porta, nova.


sandra cardoso

quarta-feira, setembro 03, 2008

domingo, junho 01, 2008

Palavrear

josé duarte


Já pensava
que o vento parara
eis que surge
a palavra
quente e doce
memória de
dias anteriores ao de hoje

Se ao menos eu não soubesse ler!

E fujo
do que ela sussurra
fujo
para me segurar a mim

Mas o aroma a azul,
o sabor a verde
(malditos sentidos)
soltam-se da palavra
e atam-me as mãos.

Caio.

Depois
um pássaro
leve como a água
lembra-me que o sol

também nasce no Ocidente

segunda-feira, abril 14, 2008

Diálogos Soltos, 13

hélder duarte

- Fazes amigos facilmente!

- Pensas que é fácil?

S&R


quinta-feira, abril 03, 2008

DIÁLOGOS SOLTOS , 12



- Gostava de te ter conhecido antes.
- Antes, não seria eu.

domingo, março 30, 2008

Leituras, II

DANIEL CAMACHO

A mãe bem o avisara que não olhasse para trás, perdia-se muito tempo e não via o que estava à frente. Mas aquela mania de dizer adeus aos amigos, sempre que partia para uma nova cidade, crescera com ele ... e não o abandonaria nunca. Ele sabia que a distância não era inimiga da amizade verdadeira.


A chave

rattus

Hoje passei a olhar para as chaves com outros olhos. Instintivamente, peguei novamente na chave do meu blogue e abri a porta. A princípio assustei-me ... a escuridão era tanta, quase me arrependi ... mas após um telefonema para a edp fez-se luz ... Sejam bem-vindos!


quarta-feira, outubro 31, 2007

L'amour devant la mer

João Carlo



Mourir devant, courir derrière

Se taire en attendant

En attendant que faut-il faire

Gagner la guerre ou simplement

Ne plus vouloir la faire

Dans cet enfer gagner du temps


Cacher dans un désert

Derrière l'océan

Les gens qui nous sont chers

Partir pour un moment

S'éloigner prudemment

Du feu et faire

Aux îles du Levant

L'amour devant la mer

L'amou devant la mer


Danser devant dans la lumière

D'un jour éblouissant

Rire de l'enfer faire un enfant

Courir derrière un peu de vent

Avant qu'un peu de terre

Coule doucement

Sur la lumière

Patricia Kaas

quarta-feira, outubro 17, 2007

Até ao Fim

Paulo A

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Dom Quixote, 2001, p. 25

sexta-feira, setembro 28, 2007

terça-feira, setembro 18, 2007

ESTRELA, 3

Parisienne Walkways


domingo, agosto 26, 2007

Dá que pensar, 15

Sandra Cardoso


terça-feira, agosto 14, 2007

Diálogos soltos, 11

Geoffroy Demarquet

-Não sei... há tantos...os outros podem...

- Enganas-te ... há só um ... o do coração ... os outros levar-te-iam para longe de ti.

Sandra Cardoso

domingo, agosto 05, 2007

Leituras

Marta Ferreira




Ficou a pensar se seria uma pessoa corajosa … nunca tinha dito ao seu pai que o amava, nunca tinha abraçado o seu irmão, nunca se tinha sentado na mesma mesa de café daquela mulher que lia os mesmos livros que ela, nunca tinha recolhido um animal abandonado, nunca se tinha inscrito como voluntária numa missão em África e nunca tivera dúvidas sobre a sua coragem … Nunca! Até hoje.

Sandra Cardoso

terça-feira, julho 17, 2007

Fragmentos, 2

Miguel P. Dias


Era um tempo em que não havia tempo. Eu vivia tardes soalheiras num jardim recortado de sonhos, onde criava a minha história com múltiplas personagens imaginárias… sozinha, perdida entre flores, pássaros, formigas…havia também o baloiço, na roda que puxara a água e que ainda rodava, esquecida do tempo…

O meu tempo era o tempo que a formiga levava a percorrer a minha mão e a subir os dedos que lhe apareciam pela frente. Sem nunca contornar os obstáculos…enfrentava-os…Terá começado aí a minha mania de filosofar (ou será que já nascemos assim?)… A formiga, frágil ser em meu poder, não desistia.

Tenho a certeza hoje da importância dessa aprendizagem na minha vida, da importância de ter vivido essas tardes sozinha, mas não solitária, da importância da natureza, do silêncio…e do tempo para pensar.

Mas que fazemos nós, agora, aos nossos filhos? Roubamos-lhes o tempo…queremos que estejam ocupados, inscritos em actividades em todos os dias das férias e até nos esquecemos de que precisam de tempo…para crescer.


Sandra Cardoso





segunda-feira, julho 09, 2007

Devo dizer que estou em dívida para com o João Oliveira do blog João Oliveira Poemas http://www.joooliveira.blogspot.com/

que me nomeou no dia 13 de Junho com um






logo eu que estava aqui tão quietinha no meu cantinho, sem me mexer muito para ninguém dar por mim … mas o João insistiu …Demorei bastante…falta de tempo ... mas aqui vão as nomeações

o blog do Alberto http://www.papeldefantasia.blogspot.com/
o blog da Licínia, http://www.sitiopoema.blogspot.com/
o blog da Dulce, http://www.paralemdemim.blogspot.com/
o blog do Manuel, http://www.de-proposito.blogspot.com/
o blog da Whisper e da Aspirante, http://www.cinefilos-anonimos.blogspot.com/

Como vês, João, não quebrei a corrente, mas suspeito que as minhas nomeações não venham a contribuir para novos encadeamentos, pois já quase todos estes blogs foram nomeados.

Beijinho e obrigada, João, pela tua presença!

sábado, junho 16, 2007

À espera do poema, 3

Luís Pereira

Como uma rosa

em botão

arrancada ao amanhecer da Primavera

Sandra Cardoso

segunda-feira, junho 04, 2007

Diálogos soltos, 10

Miguel Pereira

- Não tens dúvidas?

- Não.

- E a que horas queres que o tempo pare?


quarta-feira, maio 23, 2007

Dá que pensar,14

Sandra Cardoso

terça-feira, maio 15, 2007

Juro que não

Paulo César


Não fui eu que te pedi
este abraço
Não fui eu quem te procurou
Foste tu, Vida, que estendeste teus braços
Foste tu que me ensinaste todos os passos de dança
do que não sou.
Não fui eu que te pedi,
Não fui, juro que não,
que eu só quero olhar o mar
sentada num cadeirão
e embalar o sol na tua canção.
Não fui eu que te pedi,
Não fui eu, juro que não,
nem orquestras, nem pianos,
nem guitarras, nem sopranos...
Já devias saber, Vida,
que me basta
um pardal a chilrear
junto do meu coração.
Sandra Cardoso

segunda-feira, maio 07, 2007

Balada das Quatro Meninas


Foto A.M. Pinto da Silva




As quatro meninas têm quinze anos.

Têm nas gavetas cadernos de escola

fechados à chave ...Têm nas gavetas

(que ninguém o sonhe!) as tranças cortadas

há dois ou três dias ...Têm quinze anos.


As quatro meninas têm namorados.

(Como gostam delas!...) As quatro meninas

sabem que são belas, que o juram aquelas

cartas escondidas entre os seios tímidos.


As quatro meninas sabem-se miradas.

Sabem da inveja que têm na praia

os outros rapazes dos quatro rapazes

que à tarde lhes dizem ... as coisas que dizem.

E as quatro meninas sentem-se felizes.


Chove ...chove ... chove... Esbeltas, à janela,

por detrás dos vidros, cismam as meninas.

-Que palavras meigas estarão escrevendo,

por detrás dos vidros, escutando a chuva,

os quatro rapazes, os quatro mais belos,

martes, mais ágeis, que existem no mundo?


As quatro meninas sorriem: bem sabem.

Sebastião da Gama
Campo Aberto, Ed. Ática

quarta-feira, maio 02, 2007

Poemas da minha vida, 1

Bart

A vida que não é vida

Caminhava.
E na esquina esburacada de uma casa,
duma casa já não casa,
vi os restos esqueléticos de um candeeiro antigo
que ali fora enforcado
e ali estava.
Mais à frente,
a um portal escancarado, sem portal,
havia lixo, um cheiro a gatos vivos, ratos mortos
e um murmúrio apagado, o fim real ...
mas, ali havia gente!

Depois, um cão, sujo, magro como os seus ossos.
E, depois, uma criança que me olhava.
Que me olhava!
Uma criança!
Uma criança que não era criança
mas que tinha pezitos nus trilhados na pedra
côncava daquele chão que não tinha chão;
Uma criança que não era criança mas que tinha olhos,
olhos tristes,
tão tristes que entristeceram os meus;
Uma criança que não era criança, mas que tinha voz,
uma voz quase sem voz, mas que eu ouvia!
E ali estava o ser, ali vivia;
Era uma vida que sofria, comédia que arrepia ...

Como é possível, meu Deus?!

Corri louco para trás,
gritei quanto fui capaz
mas o mundo não me ouvia.

Ameacei satanás;
Mostrei a Deus quem sofria
pedindo amor, pão e paz,
mas também ninguém me ouvia!

E tudo há tanto tempo se passou
e a sorte da má sorte, não mudou!

sérgio O. sá

Do Banco do Jardim, Poemas
Ed. do Autor, Maio 1977, pp. 58-59


quarta-feira, abril 25, 2007

Crianças

Artur Franco


Nós, as crianças,

Queremos brincar

Em liberdade

Em qualquer lugar.



Queremos brincar aqui,

Sem haver prisões, sem armas, sem tiros e sem ladrões.



Não queremos mais a fome.

Não queremos mais a guerra.

Não queremos mais o ódio.

Não queremos mais mentira.

Queremos paz em toda a Terra.



Queremos brincar ao sol,

Como uma flor.

Nós, as crianças,

Queremos amor!


Nota: Este foi o primeiro poema que eu disse em público. Deveria ter cerca de seis anos. Infelizmente, não sei quem é o autor. Mas o poema...nunca mais o esqueci. A mensagem continua actual.

terça-feira, abril 24, 2007

Dá que pensar, 13

Sandra Cardoso

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial do Livro

A.M.Pinto da Silva

Um livro é um amigo eterno.

Sandra Cardoso

Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais.

Tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade

Ofício de Paciência

quinta-feira, abril 19, 2007

Diálogos soltos, 9

Erik Reis


- Carro novo ... Parabéns!
- Bem, não é o carro dos meus sonhos ...
- Que sorte! Assim podes continuar a sonhar!

quarta-feira, abril 18, 2007

LES SÉPARÉS

N'écris pas.
Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas.
N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas.
Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !



Marceline Desbordes-Valmore
(1786-1859)

terça-feira, abril 17, 2007

Diálogos soltos, 8

Pedro Soares
- Para sempre?
- Para ... sempre.
- Achas demais?
- Sonhar nunca é demais !

sexta-feira, abril 13, 2007

TESTAMENTO

Luís Rosa


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Ana Luísa Amaral

Minha Senhora de Quê
Quetzal Editores
Lisboa, 1999