domingo, dezembro 14, 2008

Diálogos soltos, 14

Karina Bertoncini

- Mãe, qual é o sentido da vida?
- ...

R&S

terça-feira, dezembro 09, 2008

Postal dos Correios

Está na altura de começar a enviá-los, pelos correio ...




Postal do Correios
Rio Grande(Rui Veloso, João Gil, Jorge Palma, Vitorino, Quim)


Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores:
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo "expresso" que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p'ra merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de "candeio"?

Já não tenho mais assunto p’ra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Muda de Vida




Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver


António Variações/Humanos

terça-feira, novembro 25, 2008




Na inconstância da acção
Resta-nos o olhar que não mente
E que só nós vemos.
A pergunta, mais do que simples,
Arrasta a dolorosa certeza.
Conseguiremos viver de olhares?


Sandra Cardoso

segunda-feira, novembro 17, 2008

José Saramago
16 de Novembro de 2008

Dizem-me que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.

domingo, novembro 16, 2008

Sonhos

Sentada à proa do destino
Obscuro, procuro a voz da estrela
Norte enquanto tu lês
Homero e decoras versos da
Odisseia e gestos de herói.
Só a pronúncia estraga o teu disfarce.


Sandra Cardoso

quarta-feira, novembro 12, 2008

quarta-feira, novembro 05, 2008

Diálogos soltos, 13

Lúcia Pedro

-Quando voltas?

- Não sei ... se volto.

terça-feira, novembro 04, 2008

Raphael



Uma voz irresistível...



quarta-feira, outubro 15, 2008

saudade, 2


pinto da silva


seguro-me 
a silêncios proferidos no
útero do olhar migratório
da ave.
amanhecer inaudível
desafiando a
eternidade do grito.


sandra cardoso

quarta-feira, outubro 08, 2008

rattus
Co
nta a lenda que dormia
 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada. 

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem. 

A Princesa Adormecida, 
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém. 

Mas cada um cumpre o Destino 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada. 

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora, 

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

segunda-feira, outubro 06, 2008

O AMIGO QUE EU CANTO

Poema de José Ary dos Santos

sexta-feira, outubro 03, 2008

à espera do poema, 4

paulo a. lopes

talvez a história fosse outra
se a tarde não tivesse chegado ao fim

sandra cardoso

quarta-feira, outubro 01, 2008

Crepúsculo


 Sozinha, sempre. De carro. 
Janelas abertas. Música baixa para sentir todos os sons do mundo.


O momento em que o dia se despede da noite.  
Encontro e desencontro. 
Alegria.
Abraço. Beijo. 
Dor.

As luzes das casas que se começam a iluminar. As pessoas chegam a casa, calmas.
Sorriem.
Paz. Tranquilidade.
 
A noite, inocente na sua semi obscuridade, caminhando para o silêncio.

Luzes dentro das casas. Pessoas felizes, beijando-se.
Encontro. Desencontro.
Abraços. Palavras. Sorrisos. 
Amigos.


Sozinha na Terra. 
Poderia ir até ao fim do mundo levada pela magia da hora.
Reencontro consigo.

Mas o crepúsculo é mortal. E a noite gigante.

Pára o carro.
Escuridão. 

Luz em casa.
Abre a porta, nova.


sandra cardoso

quarta-feira, setembro 03, 2008

domingo, junho 01, 2008

Palavrear

josé duarte


Já pensava
que o vento parara
eis que surge
a palavra
quente e doce
memória de
dias anteriores ao de hoje

Se ao menos eu não soubesse ler!

E fujo
do que ela sussurra
fujo
para me segurar a mim

Mas o aroma a azul,
o sabor a verde
(malditos sentidos)
soltam-se da palavra
e atam-me as mãos.

Caio.

Depois
um pássaro
leve como a água
lembra-me que o sol

também nasce no Ocidente

segunda-feira, abril 14, 2008

Diálogos Soltos, 13

hélder duarte

- Fazes amigos facilmente!

- Pensas que é fácil?

S&R


quinta-feira, abril 03, 2008

DIÁLOGOS SOLTOS , 12



- Gostava de te ter conhecido antes.
- Antes, não seria eu.

domingo, março 30, 2008

Leituras, II

DANIEL CAMACHO

A mãe bem o avisara que não olhasse para trás, perdia-se muito tempo e não via o que estava à frente. Mas aquela mania de dizer adeus aos amigos, sempre que partia para uma nova cidade, crescera com ele ... e não o abandonaria nunca. Ele sabia que a distância não era inimiga da amizade verdadeira.


A chave

rattus

Hoje passei a olhar para as chaves com outros olhos. Instintivamente, peguei novamente na chave do meu blogue e abri a porta. A princípio assustei-me ... a escuridão era tanta, quase me arrependi ... mas após um telefonema para a edp fez-se luz ... Sejam bem-vindos!


quarta-feira, outubro 31, 2007

L'amour devant la mer

João Carlo



Mourir devant, courir derrière

Se taire en attendant

En attendant que faut-il faire

Gagner la guerre ou simplement

Ne plus vouloir la faire

Dans cet enfer gagner du temps


Cacher dans un désert

Derrière l'océan

Les gens qui nous sont chers

Partir pour un moment

S'éloigner prudemment

Du feu et faire

Aux îles du Levant

L'amour devant la mer

L'amou devant la mer


Danser devant dans la lumière

D'un jour éblouissant

Rire de l'enfer faire un enfant

Courir derrière un peu de vent

Avant qu'un peu de terre

Coule doucement

Sur la lumière

Patricia Kaas

quarta-feira, outubro 17, 2007

Até ao Fim

Paulo A

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Dom Quixote, 2001, p. 25

sexta-feira, setembro 28, 2007

terça-feira, setembro 18, 2007

ESTRELA, 3

Parisienne Walkways


domingo, agosto 26, 2007

Dá que pensar, 15

Sandra Cardoso


terça-feira, agosto 14, 2007

Diálogos soltos, 11

Geoffroy Demarquet

-Não sei... há tantos...os outros podem...

- Enganas-te ... há só um ... o do coração ... os outros levar-te-iam para longe de ti.

Sandra Cardoso

domingo, agosto 05, 2007

Leituras

Marta Ferreira




Ficou a pensar se seria uma pessoa corajosa … nunca tinha dito ao seu pai que o amava, nunca tinha abraçado o seu irmão, nunca se tinha sentado na mesma mesa de café daquela mulher que lia os mesmos livros que ela, nunca tinha recolhido um animal abandonado, nunca se tinha inscrito como voluntária numa missão em África e nunca tivera dúvidas sobre a sua coragem … Nunca! Até hoje.

Sandra Cardoso

terça-feira, julho 17, 2007

Fragmentos, 2

Miguel P. Dias


Era um tempo em que não havia tempo. Eu vivia tardes soalheiras num jardim recortado de sonhos, onde criava a minha história com múltiplas personagens imaginárias… sozinha, perdida entre flores, pássaros, formigas…havia também o baloiço, na roda que puxara a água e que ainda rodava, esquecida do tempo…

O meu tempo era o tempo que a formiga levava a percorrer a minha mão e a subir os dedos que lhe apareciam pela frente. Sem nunca contornar os obstáculos…enfrentava-os…Terá começado aí a minha mania de filosofar (ou será que já nascemos assim?)… A formiga, frágil ser em meu poder, não desistia.

Tenho a certeza hoje da importância dessa aprendizagem na minha vida, da importância de ter vivido essas tardes sozinha, mas não solitária, da importância da natureza, do silêncio…e do tempo para pensar.

Mas que fazemos nós, agora, aos nossos filhos? Roubamos-lhes o tempo…queremos que estejam ocupados, inscritos em actividades em todos os dias das férias e até nos esquecemos de que precisam de tempo…para crescer.


Sandra Cardoso





segunda-feira, julho 09, 2007

Devo dizer que estou em dívida para com o João Oliveira do blog João Oliveira Poemas http://www.joooliveira.blogspot.com/

que me nomeou no dia 13 de Junho com um






logo eu que estava aqui tão quietinha no meu cantinho, sem me mexer muito para ninguém dar por mim … mas o João insistiu …Demorei bastante…falta de tempo ... mas aqui vão as nomeações

o blog do Alberto http://www.papeldefantasia.blogspot.com/
o blog da Licínia, http://www.sitiopoema.blogspot.com/
o blog da Dulce, http://www.paralemdemim.blogspot.com/
o blog do Manuel, http://www.de-proposito.blogspot.com/
o blog da Whisper e da Aspirante, http://www.cinefilos-anonimos.blogspot.com/

Como vês, João, não quebrei a corrente, mas suspeito que as minhas nomeações não venham a contribuir para novos encadeamentos, pois já quase todos estes blogs foram nomeados.

Beijinho e obrigada, João, pela tua presença!

sábado, junho 16, 2007

À espera do poema, 3

Luís Pereira

Como uma rosa

em botão

arrancada ao amanhecer da Primavera

Sandra Cardoso

segunda-feira, junho 04, 2007

Diálogos soltos, 10

Miguel Pereira

- Não tens dúvidas?

- Não.

- E a que horas queres que o tempo pare?


quarta-feira, maio 23, 2007

Dá que pensar,14

Sandra Cardoso

terça-feira, maio 15, 2007

Juro que não

Paulo César


Não fui eu que te pedi
este abraço
Não fui eu quem te procurou
Foste tu, Vida, que estendeste teus braços
Foste tu que me ensinaste todos os passos de dança
do que não sou.
Não fui eu que te pedi,
Não fui, juro que não,
que eu só quero olhar o mar
sentada num cadeirão
e embalar o sol na tua canção.
Não fui eu que te pedi,
Não fui eu, juro que não,
nem orquestras, nem pianos,
nem guitarras, nem sopranos...
Já devias saber, Vida,
que me basta
um pardal a chilrear
junto do meu coração.
Sandra Cardoso

segunda-feira, maio 07, 2007

Balada das Quatro Meninas


Foto A.M. Pinto da Silva




As quatro meninas têm quinze anos.

Têm nas gavetas cadernos de escola

fechados à chave ...Têm nas gavetas

(que ninguém o sonhe!) as tranças cortadas

há dois ou três dias ...Têm quinze anos.


As quatro meninas têm namorados.

(Como gostam delas!...) As quatro meninas

sabem que são belas, que o juram aquelas

cartas escondidas entre os seios tímidos.


As quatro meninas sabem-se miradas.

Sabem da inveja que têm na praia

os outros rapazes dos quatro rapazes

que à tarde lhes dizem ... as coisas que dizem.

E as quatro meninas sentem-se felizes.


Chove ...chove ... chove... Esbeltas, à janela,

por detrás dos vidros, cismam as meninas.

-Que palavras meigas estarão escrevendo,

por detrás dos vidros, escutando a chuva,

os quatro rapazes, os quatro mais belos,

martes, mais ágeis, que existem no mundo?


As quatro meninas sorriem: bem sabem.

Sebastião da Gama
Campo Aberto, Ed. Ática

quarta-feira, maio 02, 2007

Poemas da minha vida, 1

Bart

A vida que não é vida

Caminhava.
E na esquina esburacada de uma casa,
duma casa já não casa,
vi os restos esqueléticos de um candeeiro antigo
que ali fora enforcado
e ali estava.
Mais à frente,
a um portal escancarado, sem portal,
havia lixo, um cheiro a gatos vivos, ratos mortos
e um murmúrio apagado, o fim real ...
mas, ali havia gente!

Depois, um cão, sujo, magro como os seus ossos.
E, depois, uma criança que me olhava.
Que me olhava!
Uma criança!
Uma criança que não era criança
mas que tinha pezitos nus trilhados na pedra
côncava daquele chão que não tinha chão;
Uma criança que não era criança mas que tinha olhos,
olhos tristes,
tão tristes que entristeceram os meus;
Uma criança que não era criança, mas que tinha voz,
uma voz quase sem voz, mas que eu ouvia!
E ali estava o ser, ali vivia;
Era uma vida que sofria, comédia que arrepia ...

Como é possível, meu Deus?!

Corri louco para trás,
gritei quanto fui capaz
mas o mundo não me ouvia.

Ameacei satanás;
Mostrei a Deus quem sofria
pedindo amor, pão e paz,
mas também ninguém me ouvia!

E tudo há tanto tempo se passou
e a sorte da má sorte, não mudou!

sérgio O. sá

Do Banco do Jardim, Poemas
Ed. do Autor, Maio 1977, pp. 58-59


quarta-feira, abril 25, 2007

Crianças

Artur Franco


Nós, as crianças,

Queremos brincar

Em liberdade

Em qualquer lugar.



Queremos brincar aqui,

Sem haver prisões, sem armas, sem tiros e sem ladrões.



Não queremos mais a fome.

Não queremos mais a guerra.

Não queremos mais o ódio.

Não queremos mais mentira.

Queremos paz em toda a Terra.



Queremos brincar ao sol,

Como uma flor.

Nós, as crianças,

Queremos amor!


Nota: Este foi o primeiro poema que eu disse em público. Deveria ter cerca de seis anos. Infelizmente, não sei quem é o autor. Mas o poema...nunca mais o esqueci. A mensagem continua actual.

terça-feira, abril 24, 2007

Dá que pensar, 13

Sandra Cardoso

segunda-feira, abril 23, 2007

Dia Mundial do Livro

A.M.Pinto da Silva

Um livro é um amigo eterno.

Sandra Cardoso

Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais.

Tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade

Ofício de Paciência

quinta-feira, abril 19, 2007

Diálogos soltos, 9

Erik Reis


- Carro novo ... Parabéns!
- Bem, não é o carro dos meus sonhos ...
- Que sorte! Assim podes continuar a sonhar!

quarta-feira, abril 18, 2007

LES SÉPARÉS

N'écris pas.
Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas.
N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas.
Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !



Marceline Desbordes-Valmore
(1786-1859)

terça-feira, abril 17, 2007

Diálogos soltos, 8

Pedro Soares
- Para sempre?
- Para ... sempre.
- Achas demais?
- Sonhar nunca é demais !

sexta-feira, abril 13, 2007

TESTAMENTO

Luís Rosa


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Ana Luísa Amaral

Minha Senhora de Quê
Quetzal Editores
Lisboa, 1999

quarta-feira, março 28, 2007

À espera do poema, 2

Joana Homem da Costa

... ser das palavras a voz

grito d'alma em terra d'amor

ou grito d'amor em terra d'alma ...

Sandra Cardoso

terça-feira, março 20, 2007

À espera do poema,1

A.M. Pinto da Silva

... ouvi gargalhadas de sonho
e um sorriso lento espreguiçou-se em mim...

sábado, março 17, 2007

PELE

Pipoca

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira


segunda-feira, março 12, 2007

Diálogos Soltos, 7

Marta Ferreira

-Em que é que estás a pensar?

-Em nada.


quinta-feira, março 08, 2007

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O PREÇO DE UM SONO TRANQUILO OU O HOMEM QUE MORREU DE AMOR



Bart

Muitas vezes, misturo-me na multidão, para não pensar. Ouço as vozes, observo todas as pessoas que passam por mim, olho as montras, os preços, espero pelo sinal verde, atravesso estradas, ouço o barulho dos automóveis e, enquanto me distraio com o ruído, não me ouço, esqueço-me, quase me anulo na multidão. Porque a minha voz, quando me deito no silêncio da noite, a minha voz quase não acreditando que é minha, a minha voz a sugerir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a pedir aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, a minha voz a impor aos meus pais que colocassem a minha avó num lar, não me dá tréguas. E só consigo adormecer quando ouço que era para bem deles, que a vida deles era um inferno, acordar às quatro horas da manhã e ver que a minha avó tinha colocado todas as roupas que possuía no chão e tinha feito uma trouxa e queria encontrar a porta para se ir embora e que eles não conseguiam dormir e que tinha arrancado a fralda e eram mais dois lençóis e um edredon, mais dois porque já tinha sido assim a semana inteira e que, além disso, tinham de ouvir os insultos da minha avó e os gritos e as agressões e que, no dia seguinte, a minha mãe tinha de trabalhar e que não podiam deixar de olhar para ela um segundo, porque ela podia fugir como já fizera tantas vezes, podia saltar novamente o muro da nossa casa e magoar-se, porque era melhor para ela, para eles, para mim ... Só assim é que eu consigo adormecer, por algumas horas, sabendo que antecipei a morte da minha avó, para salvar a saúde mental dos meus pais, porque, por muito bons que sejam os lares, ninguém trata melhor a nossa mãe, a nossa avó, do que nós...

Felizmente, os meus pais tinham algum dinheiro para pagar a prestação de um lar....estiveram à espera de vaga nos outros, nos do Estado, mas não havia...não havia... nos do Estado não há vagas para os idosos, o que importa os idosos? E os meus pais conseguiram pagar para terem um pouco de paz, (se é paz ir visitar a nossa mãe a um lar...).

Agora, uma outra imagem me atormenta, o desespero daquele homem obrigado a cometer um crime no final da sua vida, uma vida honrada, porque só um homem da altos valores poderia ter tamanho acto de amor, o desespero de não ter tido resposta de uma sociedade que aponta a justiça social como um dos seus valores fundamentais, o desespero de quem grita e não é ouvido. E atormenta-me saber que há tantos homens e mulheres e crianças que estão a gritar neste momento e eu estou aqui, com a cabeça na almofada, sem conseguir fechar os olhos, porque ouço o desespero da solidão daquele homem, ouço o seu grito mudo e sinto os tiros que entram em mim como sirenes de revolta ...

Assusta-me saber que não adianta pedir, reclamar, participar em manifestações, em greves...assusta-me esta impotência a que o cidadão comum chegou ...assusta-me que a única solução daquele homem tenha sido aquela, porque, acreditem, visto daqui e agora, continuo a achar que nós não tínhamos solução para aquele homem. E por isso não durmo. Não consigo, porque penso no estado das coisas e no Estado. Será que à noite, apagadas as luzes do dia, quando pousa a cabeça na almofada, o Estado consegue fechar os olhos e dormir um sono tranquilo?

Sandra Cardoso

p.s. esta reflexão vem no seguimento da notícia de um idoso que matou a mulher, doente de Alzheimer, e que se suicidou em seguida.


terça-feira, março 06, 2007

Pedro Rodrigues

Foi neste dia

Que desceste do céu e sopraste um brilho de luz no meu coração!


segunda-feira, março 05, 2007

RENTE AO CHÃO





A.M.Pinto da Silva

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de março rastejando ainda.




Eugénio de Andrade

in O Outro Nome da Terra

Ed. Limiar, Out.1988, p. 29

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

...

Sérgio Redondo

Quanto vale uma hora de vida?



segunda-feira, fevereiro 26, 2007

...

Jorge Bica

há manhãs de chuva
que molham a alma
apenas pelo lado de fora

há tardes de sol
que queimam o corpo
realidade adentro

há noites de luar
que riscam a vermelho
o peito desiludido dorido enxuto
de tanto esperar pelo dia seguinte

tu tu banhas as pétalas
do meu sonho revolto envolto
em círculos ténues
de tempestades perenes
de verdadeiro estio
e estás sempre pronta a irrigar
de pranto de alegria de esperança
o meu plantio isto é
as minhas terras de cultivo

Manuel Fontão


segunda-feira, fevereiro 19, 2007

CHUVA

A.M.Pinto da Silva

Chove.

A grua indica o caminho.
A gaivota pousa na grua.
Olha o mar.

Chove.
Em que pensará a gaivota pousada na grua
Alta
Olha o mar
Olha a minha sala
Olha-me sentada no sofá ou deitada
O sofá
A gaivota à chuva olha o mar
Eu sentada ou deitada ouço o mar
E não chove
No sofá
Não
Chove
Na grua alta que mostra o mar à gaivota
E a mim
O que mostra o sofá?
A gaivota parte
E a mim
O que mostra o sofá?
Fica a grua
Fica o sofá

Fico.

O que mostra o sofá?

Chove.

Sandra Cardoso

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cadastrado

Evandro Monteiro


Uma vez, aos sete anos,

partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja

Dez anos depois, conduzindo um carro,

não parou num cruzamento de rua

onde havia um sinal de stop.

Dois anos depois, teve uma briga

num bar, e partiu a cabeça a um amigo

com uma garrafa de cerveja.

Quando se recusou a combater no Viet-Nam,

o seu cadastro provara como desde a infância,

sempre manifestara sentimentos

nitidamente de traidor à pátria.

12 de Agosto de 1969(?)

Jorge de Sena


in Poesia de Jorge de Sena

Ed. Comunicação, 1985, p.179